19 Fevereiro, 2012
1/2
13 Novembro, 2011
Soma Perfeita
Quatro Estações (em uma noite!)
Sorrisos em Forma de Sol
Cúmplices
Mas foi assim desde que nos conhecemos, no lado mais leste do mundo. A vista que tínhamos do oceano era pequena pro que eu enxergava dentro dos seus olhos: uma ambição boa, a vontade de conhecer tudo, de saber de tudo, de ser mais.
16 Maio, 2011
Demais
06 Maio, 2011
Melhor Tempero
16 Fevereiro, 2011
Enganos e Desenganos
11 Janeiro, 2011
Tarde de Verão
Daquelas que começam com calor que te fazem transpirar,
e bufar, e cansar, e encostar, e parar...
De repente, tudo muda:
"Olha a Chuva!"
Chuva é pouco: tempestade
pronta para abrir os olhos,
escorrer a água, e as lágrimas,
e encher qualquer espacinho;
chuva que lava a alma,
enche as comportas, enche as represas,
enche os rios, enche as pessoas
de esperança, de apreensão, de medo
e felicidade.
Só de saber que daqui a uma hora tudo isso vai
mudar...
Você é uma tarde de verão.
Com todos os gostos, sensações,
ventos, ânimos, sol, chuva, praia
e intensidade.
Na verdade, desde o princípio,
Essa tarde de verão é o que você provoca
Em mim
(em uma hora).
04 Outubro, 2010
Entre Partidas e Memórias
03 Outubro, 2010
Sonho

Sujeito Indeterminado
Nunca mais.
Sapos
09 Agosto, 2010
Tristeza Companheira
13 Junho, 2010
Sobre Namoros
agora tu não podes mais me deixar.
Porque é só pelo teu corpo
que conheço a medida do meu;
e sem teus olhos, sem teu rosto,
meu próprio espelho se perdeu.
Ouve:
teu lugar não é mais a meu lado.
Porque agora
tu já estás em mim.
E não podes me trair.
Afinal, como seria
ser quem sou (e viver comigo)
se de mim mesmo estivesse separado?
se de mim mesmo fosse temido ou odiado?
Ouve:
eu te amo.
E porque te amo
mais do que alguém imaginaria,
desaprendi todos os meus limites,
e hoje sou pessoa além do que merecia.
24 Março, 2010
Biografia
20 Janeiro, 2010
O Dancing dos Íntimos
24 Dezembro, 2009
Feliz Natal, Feliz
Velhos hábitos
25 Novembro, 2009
Na espera, a melodia
Peças
10 Novembro, 2009
E, de toda uma preparação, da sementinha, dos meses, de tudo que mais importa, ela chegou. Um pouquinho mais cedo, um pouquinho mais magra, mas já chegou me trazendo isso tudo que não cabe em mim.
Esse amor, que não era amor, e, inexplicavelmente, já é amor, me lembra todas as coisas arrebatedoras que já tive na vida. E se delas, inúmeras foram sensacionais e inesquecíveis, é fácil de pensar que essa minha irmãzinha vai seguir na mesma linha.
Para Cecília, com meu carinho, e palavras de minha amiga paulista:
E que ao arrebentar-te os dias, após a calma dos meses na barriga, você seja plena nas paixões, nas dores, nos suores e na incrível arte de se manter de pé, sejam quais forem as marés de sua praia. Que tua terra seja germinada por bons afetos, que teu corpo só obedeça teus limites, que tua ânsia seja sem delongas, que tua convicção seja soberana. E tuas horas caminhem amplas, leves e graves: antagônicas, princípio e fim de uma alma livre.Faça da solidão sua amiga e ame até dar dor no peito.
Visite teus infernos.
Trave relações imperfeitas.
Perca o prumo.
Odeie algumas vezes.
Até vislumbre desgraça, mas só enxergue poesia.
07 Novembro, 2009
Construção
Hoje, de fato, pensei muito. Sem uma pauta fixa, pré determinada, minha cabeça ficou à mercê de músicas, fotos, programas televisivos e blogs. A viagem, então, se fez. Por águas profundas do distante passado, por filetes de água de um futuro que ainda está se formando. Ainda há tão pouco com o que se pudesse fazer algum tipo de previsão - mesmo que eu mesmo nem saiba se gostaria de prever algo ou preferiria a surpresa.
A profundidade do passado, porém, me assusta. Não são simplesmente lembranças soltas que trago em minha bagagem por essa vida. Nesse intervalo, consigo vislumbrar um apanhado de situações, perdidas em épocas diferentes de minha existência, que formam um todo, num paradoxo sem fim de dissociação e indivisibilidade: enquanto juntas, sou eu; separadas têm um significado único e ainda mais especial, mas que nunca definiriam a complexidade de alguém.
E, nessas lembranças, como num sonho, havia dois de mim: um da época, ali vivendo (e aprendendo) cada experiência e o eu de agora, que a elas assistia, parcialmente julgando. Veja bem: não sou um escritor, quem dirá um prosador ou poeta saudosista.
Na realidade, não sei nem se é com saudade que penso nesses tempos. Acho que saudade é devastador demais para ser isso que sinto agora. Em contrapartida, não acho as palavras ideais para definir. Sendo simplório, é uma forma de agradecimento. Às pessoas, boas e ruins, com quem convivi, e situações por que passei. Elas construiram, pedaço a pedaço o meu presente.
Hoje, se tenho planos, se tenho idéia do que desejo ou não para minha vida, é devido às minhas experiências passadas. E eu anseio para que, daqui a algum tempo, eu possa olhar para o passado e ver, mais uma vez como juiz, o meu eu de hoje, acertando e errando e construindo, paulatinamente, uma trajetória, no mínimo, interessante.
"Então tentar prever /serviu pra eu me enganar /(...) Numa moldura clara e simples /sou aquilo que se vê" (Retrato pra Iaiá - Los Hermanos)
"E se eu fosse o primeiro a voltar /pra mudar o que eu fiz, /Quem então agora eu seria? (...)/E se eu for o primeiro? /A prever e poder desistir /do que for dar errado (...)/Dispenso a previsão /Ahhh, se o que eu sou /é também o que eu escolhi ser /aceito a condição" (O Velho e o Moço - Los Hermanos)
23 Outubro, 2009
- Parcimônia, meu filho... Parcimônia!
Infelizmente, não ouviu e continuou assim, mergulhando exageradamente em cada coisa que a vida lhe oferecia.
01 Outubro, 2009
Sobre o Tempo que passou
26 Setembro, 2009
Dos dois amores
22 Setembro, 2009
Barulho de Tempero
29 Agosto, 2009
Amizades e Leviandades
Como uma espécie de retrospectiva, vários rostos foram vindo à minha memória como aqueles que um dia ocuparam vagas dentre as minhas pessoas favoritas e mais importantes, além minha família: meus amigos.
Amizade, conforme diria meu amigo Aurélio, é a afeição recíproca entre dois entes ou simplesmente "boas relações". Aurélio é um de meus amigos de conhecimento mais notório, mas, dessa vez, não posso concordar com ele.
Amizade é afeição, sim, mas é raiva exacerbada nos momentos ruins. É paciência nas expectativas e problemas, enquanto é urgência na saudade e na vontade de estar perto... É intensidade em compartilhar e calmaria em aguentar, segurança em conversar, sapiência na mesa do bar, é música cantada na bebedeira, é perder a estribeira com alguém, não encontrar eira nem beira, é companhia...
Amizade não tem intervalos fechados, sempre tem mais de onde surgir.
Há alguns anos, eu tinha alguns amigos. Hoje, tanta coisa mudou... Alguns permanecem, outros perdi o contato. Que pena! Gostaria de reencontrá-los para ver como andam; alguns, porém, podem continuar com o contato perdido, por favor.
E foi isso que me intrigou: esses eram os meus amigos de verdade, ou era mais uma das leviandades da vida, hoje em dia tão assombrosa? São esses frutos da mania de dizer "eu te amo" que parece dominar parte das pessoas?
Na verdade, não procuro uma resposta... Na verdade, não acho que haja uma resposta... Na verdade, refletir sobre a tal veracidade, já é a resposta!
Dessa vez tenho de discordar do Aurélio, como disse, e pior: concordar com a crença popular: para um bom entendedor, meia palavra (ou pensamento) basta.
"Tudo que vai /Deixa o gosto, deixa as fotos... /Quanto tempo faz?! /Deixa os dedos, deixa a memória /Eu nem me lembro mais. /Fica o gosto, ficam as fotos, /Quanto tempo faz... /Ficam os dedos, fica a memória /Eu nem me lembro mais" (Tudo que Vai - Capital Inicial)
24 Julho, 2009
Paradoxo do caso Sereno
Não sabia dizer o que havia me despertado abruptamente. Não estava incomodado, nem nada. Apenas acordei, assim, do nada. E olhei pro lado, enquanto ela dormia na cama serena. Encostei meus lábios na testa dela e senti ela se acomodar mais pra perto de mim, procurando meu corpo. Tantas vezes já tínhamos passado por isso. Levantei-me suavemente para que ela não acordasse. Andei até a janela e percebi que algo mudara naquela madrugada. Estava longe, saberia eu depois, de descobrir exatamente o que era. Mas, assim, do nada, abruptamente, alguma coisa mudou e senti vontade de sair dali para algum lugar mais distante do mundo.Eu queria ver o mar, o sol, as pessoas, as cores, lá do outro lado do mundo, quem sabe até fora dele. Eu queria pular de pára-quedas enquanto tomava um chá com leite, como os ingleses fazem. Queria mergulhar com tubarões levando apenas um pedaço suculento de charque argentino e, ainda assim, eles seriam amáveis e gentis. Depois eu daria a carne como recompensa pra eles. As coisas andavam meio em preto e branco.
Voltei meus olhos para ela que dormia um sono brando. Peguei uma mochila e enchi com algumas coisas. Tempo igual levou para que eu escrevesse um bilhete pequeno que dizia: "Fui ver o mundo e volto. Espera" e o deixasse em cima de uma mesa de cabeceira. E saí, atravessei a rua e a rua me atravessou. Pensei no sono intranquilo que agora ela levava. Mas eu voltava. E ela me esperava.
20 Julho, 2009
Empinando Sonhos
Quando ele entrou em casa, pegou as cartas que haviam sido cuidadosamente empurradas por baixo da porta e seguiu para o sofá. Largou-se ali. O dia havia sido exaustivo diante de tanta papelada e burocracia no trabalho. Pensou, rapidamente, no emprego que havia arranjado. Era seu primeiro trabalho e estava progredindo, devia se orgulhar. Sempre sonhara em ter um grande emprego e ser um excelente profissional.Entre a correspondência, contas, contas, contas. E uma carta solitária, num envelope bem dobrado e quente. Estranhou. Não recebia cartas há anos. Olhou o campo do remetente enquanto afrouxava a gravata. Era de uma amiga que há tempos não falava. Artista, ela. No momento, trabalhava também em algo sério, mas sua alma jamais deixaria de pertencer à arte. Mal sabia que a dele também.
Ela começava:
"Meu amigo, quanto tempo. Fui à praia, andei na areia e toquei o pier. De repente, pensei em você e em mim. Nossa amizade é como a areia, não é? Construída na totalidade de grão-em-grão. Muda de forma, muda o jeito, mas no fim, está sempre ali. E é por isso que ao escrever para alguém, outra pessoa não podia ser. Tive um sonho, que ainda tenho e agora sempre terei. Meu sonho, em mim como meu sangue, é morar num sótão. Pequeninho, com gavetas e prateleiras. A única coisa grande é a vontade de estar ali e a janela, um triângulo isósceles que ilumina o sótão e deixa-o grande. Só isso é grande, só isso é meu grande sonho."
A carta acabava assim, sem mais informações. Mas a relação deles sempre fora assim. Sem mais, ele entendia ela, ela entendia ele. E, diante desse entendimento maior, ele sabia que ela iria atrás do sonho. O sótão já existia, em algum lugar, e ela encontraria, nem que fosse no momento mais íntimo e reservado dela.
Talvez nunca mais se vissem. Foi o primeiro pensamento triste que lhe ocorreu. Depois, começou a pensar sobre seus sonhos. Lembrou-se, inclusive, das vontades de criança. Voar seria sua maior vontade.
Foi até a venda mais próxima e comprou uma pipa, a qual empinou do lado de fora do terreno de sua casa. Ficou olhando a pipa durante horas, ali, voando no céu. Seu sonho era ser um soltador de pipas, e só. Compraria uma casa pequenininha, com paredes próximas e teto baixo. A única coisa grande seria uma enorme pipa vermelha e preta que teria ao lado. E, todos os dias, se colocaria a soltar a pipa enquanto todos na rua olhavam maravilhados.

Da mesma forma como ele estava agora. A noite caiu, e caiu a pipa. Caiu na real, cairam os sonhos. Precisava terminar um trabalho, que durou a noite toda.
Acordou do sono rápido que tirou, acordou do sonho e acordou. Perdera aquele momento que era sua chance única de viver seu sonho. Pelo menos, era o que pensava. Ainda não havia percebido que, como a menina, a qualquer momento podia escrever para alguém contando que tinha pego sua linha e, com sua pipa embaixo do braço, saiu por ai procurando novos ventos que o fizessem voar de encontro ao seu sonho.
19 Julho, 2009
O Vento vai dizer Lento o que virá
Na verdade, havia mais que uma só pessoa. Mas a sensação que eu tinha era de que o vento era o único que me acompanhava.
Enquanto me pegava os cabelos e fazia-me um cafuné, esbaforido, eu subia nas pedras que me levariam até o outro lado. Após atravessá-las, certamente, eu encontraria as maiores felicidades que a mim estavam predestinadas. Engraçado é que eu sempre tive essa impressão de que a praia seria meu paraíso, no fim.
E enquanto eu estava ali, no meu infinito, maior paz não podia haver. Esqueci em que estava pensando. Embora nem quisesse lembrar o que era, foi a primeira vez que me senti solitário. O vento havia parado de soprar em meus ouvidos os assuntos que costumávamos conversar em silêncio e, sem isso, sem meus pensamentos, senti os pesares de ali estar sozinho. O caminho de volta pareceu distante e árduo demais para fazer sem comapanhia.
Distante do mundo, sem um sequer pensamento profundo, tirei os shorts, me joguei na água e nadei. Fui em busca da minha felicidade, dos meus sonhos que não havia ainda sonhado. Água gelada, ali ao meu redor, fazia-me companhia agora nessa nova empreitada. Avise ao mundo que estou bem e não volto, não.
E se algum dia, vento, te encontrar por ai, traga-me apenas as notícias e lembranças boas. As demais, pendura na conta de outra pessoa.
"Posso ouvir o vento passar, /assistir a onda bater, /mas o estrago que faz /a vida é curta pra ver. /(...)Como pode alguém sonhar /o que é impossível saber /não te dizer o que eu penso /já é pensar em dizer. /E isso eu vi: /o vento leva! Não sei, /mas sinto que é como sonhar, /que o esforço pra lembrar /é a vontade de esquecer." (O vento - Los Hermanos)
Construção por Remendos
A partir daquele momento, libertador momento, pude sentir o que estava acontecendo. Passei a mão em meu peito e percebi que ali houvera um rasgo. Como posso não lembrar, se em mim mesmo se encontrava aquela remenda? E aquela pessoa que controlava meus movimentos era, certamente, quem havia costurado pedaço por pedaço de mim.
Devo sentir tristeza, raiva ou saudade? Na verdade, sinto gratidão. Foi com ela, ao me controlar, que aprendi a andar, sentar, correr, pular, mexer, sorrir, chorar e amar.
01 Julho, 2009
Sentido Real da Demagogia
E, talvez, parar de ter expectativas.
Lendo algumas coisas que me fizeram pensar, um dos tais radicais defendia a não-demagogia, a não-interferência social na votação, a não-alienação da população. Bem, acredito eu, caro senhor, que isso não seja possível. Numa sociedade ideal, quem sabe, mas aqui, Brasil, bonito por natureza e corrupto por esperteza, é simplesmente incabível. Arrisco dizer que na maior parte do planeta a realidade é a mesma: cada um se preocupa com o seu e vota no que lhe é mais conveniente. Atento para que não estou defendendo esse tipo de atitude, é apenas uma constatação.
Lendo algumas coisas que me fizeram pensar, percebi o uso da palavra demagogia em demasia. Todo político que faz obra para a população carente está a praticá-la; as cotas nas universidades públicas, as visitas às comunidades pobres. É fato que há uma fórmula a ser seguida, sim, para ganhar uma eleição e conquistar a empatia da população. Mas querer cruxificar todos as pessoas que agem dessa forma, é por demais estúpido dos tão esclarecidos filósofos políticos. Demagogia, como foi previsto há séculos atrás por Aristóteles, no sentido da degeneração da Democracia, não está nesse assistencialismo que, perdão, mas tem de existir numa realidade segregacionista como a nossa. Demagogia está na corrupção do governo da maioria. Que tal nos preocuparmos com o roubo do patrimônio público, com o nepotismo, com a justa remuneração e, consequentemente, cobrança, sobre os políticos da alta câmara (Sarney, quem?!). Ah, senhores, isso ai dá pano pra manga.
Lendo algumas coisas que me fizeram pensar, percebi que política é, mesmo, como futebol. Não tem como discutir. As verdades não são verdades; os sábios não são sábios. O que todos querem é a busca por um Estado de Direito real, com o mínimo para se viver assegurado e a menor distância nas camadas sociais. Quer dizer, todos querem? Ah, senhores, isso ai dá pano pra manga.
(In)Felizmente, não tenho interesse nesse tipo de costura.
"Dormia a nossa pátria mãe tão distraída /sem perceber que era subtraída /em tenebrosas transações (...) /numa ofegante epidemia /que se chamava carnaval" (Vai passar - Chico Buarque)
12 Junho, 2009
Just Like This
How come it seems wrong? Why this feeling rests in you?
Use your old recipe, says that tiny voice: chocolate, milk and vodka. That may make your thoughts get better so as to solve all your problems.
Instead of it… Doesn’t matter. Everything just seem outta place, just like this, just like it is.
"But it's nothing new/ I loved you with a fire red/ Now it's turning blue, and you say./ Sorry like an angel,/ heaven let me think was you" (Apologize -Timbaland)
19 Maio, 2009
Das Exatas Lições que Aprendi
O que fazer quando tudo vai se aproximando, da direita e da esquerda, e, simplesmente, não sabe qual a solução? Apesar de não saber a resposta, a gente continua, a gente é sempre contínua.
Chegou a hora de fechar os olhos, e apenas pedir por uma nova função amanhã. Mais simples, mais clara, que não nos faça ficar assim, a derivar neste tão monstruoso mar. Calculo ser, esta, a melhor decisão que tomei.
11 Maio, 2009
Mundo à Parte

Passamos o dia juntos. Me espantei com a quantidade de sentimentos que ela conseguia passar com o olhar. Virava-me e enternecida estava; no outro momento, olhos travessos, mansos, sonados, atentos, me consumiam. O cabelo que descia sobre seus ombros prendeu minha atenção durante alguns instantes enquanto estava ao pé da cama pegando algo no chão. E ao engatinhar de volta aos meus braços, perdi a concentração e o controle.
Passamos o dia assim. Eu e ela, ela e eu. O mundo, que lá fora girava, pouco nos importava. Crise, guerra, tristeza e problemas eram proibidos à nossa realidade.
Aquilo sim era a chamada felicidade. A paz se fazia e pra que me importava algo mais?
Simplesmente, porque passamos o dia na cama.
"Sunday morning rain is falling/ Steal some covers, share some skin/ clouds are shrouding us in moments unforgettable/ you twist to fit the mold that I am in/ (...)That may be all I need/ In darkness, she is all I see/ Come and rest your bones with me/ Driving slow on sunday morning/ And I never want to leave" (Sunday Morning - Maroon Five)
02 Maio, 2009
Era uma vez um fim
E ele, enquanto vos escreve isso, pecebe que não há fim para o que faz, não há princípios nesse jogo, não há meios para atingir o que deseja, não há mais... Mas, ainda assim, escreve, apaga, reescreve, e pensa. A caneta tangenciando o papel como a mão tangencia o rosto, dispersando o que foi molhado algum tempo atrás. Traz a paz de volta, traz a serenidade conhecida, acaba com isso.
E, ao terminar, acabou.
"E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais /que o mundo compreendeu /e o dia amanheceu /em paz" (Valsinha - Chico Buarque)
01 Maio, 2009
Indefinidamente pra sempre
E essa conjugação das pessoas variadas em pronomes me proporcionou uma viagem muito além do que o pensamento sobre a lingua portuguesa poderia. Eu não as havia dito apenas por dizer, num calor do momento. E como estava quente!
Das pontas de meus dedos, ao inanimato do meu último fio de cabelo, este entre os teus dedos, tudo estava em um calor anormal, que me subia e deixava-me tonto. Abafadamente apaixonado, como você me chamou.
Eu não tinha em minha mente que ficaríamos juntos para sempre. Apenas que cresceríamos: juntos, um a um semeando no outro aquilo tão desejado durante esse tempo no qual ainda não havíamos nos encontrado. Hoje, não importa se estamos ou não juntos.
Lembrei-me de quando, abaixo de outros braços, abracei-te e senti a união de duas pessoas, dois corpos, duas almas como nada antes eu podia ter imaginado. Mais uma vez, naquele pequeno enorme momento, beijei teus lábios com uma urgência como se necessitasse disso para continuar a viver.
Você pôs seus braços em volta à minha cintura, como era de costume, recostou a cabeça em meu peito, como era de costume, e falou que me queria com você naquela noite, naquela semana, daquele instante para sempre - isso não era de costume.
Ali, percebi nossa conexão sem fim. De tudo mais, o resto era fenecente diante nossa realidade.
O infinito daqueles momentos só acompanha o infinito das minhas felicidades em reviver essas lembranças cá, lembrando-me de quando tudo isso era presente. Lembrei-me disso, daquilo, de tudo, de você.
E, indefinidamente, no meu pra sempre, será assim.
"You'll always be a part of me/ I'm part of you indefinitely/ girl, don't you know you can't escape me/ oh darling, cause you'll always be my baby" (Always be my baby - David Cook)
28 Abril, 2009
Coisas que Tenho a Dizer
Perco meu tom alarmante, denunciante, irônico ou erudito para simplesmente trazer a simplicidade a essas mais simples - portanto, verdadeiras - palavras: Sinto saudades. E de todas as vezes que escrevi sobre isso, dessa vez tá tão complicado.
Esse relato poderia ser para tantas pessoas, que já nem sei mais se sinto saudades delas ou de mim mesmo.
Mas, não! É para Alguém.
Temos uma fácil convivência, um papo fluido do estilo leve de se conversar (como todos deveriam ter). Temos umas histórias, uma viagem - ou várias?! - uns aforismos e umas risadas que não encontro similares por mais que procure... e como procuro!
Mas chega de falar de nós. Você, Alguém, sabe disso tudo. Eu entendo que o ano esteja difícil para você, mas será que a cobrança é tão complexa quanto é complexo para mim ficar sem a sua companhia?
De todas as formas, sinto saudades. E queria que soubesse desde o princípio, apesar de conhecer minha mafiosidade tão bem que já sabia antes mesmo de eu querer falar.
Estou aqui, ali, acolá, ou em qualquer lugar, para você sob qualquer situação.
Filosoficamente, finalmente, vamos acelerar esse tempo que "a sapucaí é grande e o tempo ruge"!
26 Abril, 2009
Os Estratégicos 90 minutos
Literalmente e por tudo que ele me proporciona. Além do famoso almoço de domingo, é dia de Maracanã. E não há como mensurar o que é o Maracanã para mim.
O Ministério da Saúde adverte: se você não gosta de futebol e considera irracional quem gosta, pare por aqui!
Se continuou, como eu, gosta. Entende que a paixão nacional, de fato, pode ter algum sentido. Não daqueles que possamos explicar numa aula ou com qualquer teorema. Sentido ligado mais à raiz da palavra, relacionado a sentimento. São 90 minutos de pura adrenalina, de vozes em coro, de palavrões jogados ao vento, de amigos e inimigos efêmeros, de humanidade e paixão.
Humanidade, pois o Maracanã presencia de tudo, todas as possíveis relações humanas: tem amor do casal de namorados, amizade no abraço de comemoração, repulsa, ódio, tudo! Ali, no Maracanã, mostram-se as verdadeiras características de cada um de nós em sua mais real natureza.
Sobre a paixão, apaixonadamente, falo. É simples percebê-la; árdua é a tarefa de entender. Gastar dinheiro, perder a voz, aborrecer-se por vezes... só acontece em dois lugares: Maracanã e fila de INSS. E ninguém enfrenta isso se não for por paixão a algo, pode ter certeza. E por que essa paixão?
Isso, de fato, não sei responder.
Mas é uma alegria que sobe ao pisar naquele chão, uma ansiedade boa... e durante aquele tempo, os problemas são automaticamente extintos, não importa nada mais.
E dessa imensidão, literalmente, que é o Maracanã, vêm sempre bons frutos, ainda que percamos o jogo: os estratégicos 90 minutos de felicidade que preciso no meu sagrado Domingo.
"Domingo, eu vou ao Maracanã./ Vou torcer pro time que sou fã./ Vou levar foguetes e bandeiras/ não vai ser de brincadeira/ ele vai ser campeão." (Domingo eu vou ao Maracanã - Neguinho da Beija Flor)
16 Abril, 2009
Poema Desuniformente Variado
09 Abril, 2009
Ao desapego
Que o mais importante já passou. Agora, só restam as lembranças de um passado remoto ou não, as memórias, fotografias, pensamentos.
Vem.
Não há mais o que vivermos juntos. Da fonte que bebíamos, nada restou. Sobrou pedra de que água não mais é vertida. Sobrou pouco. Sobrou nada.
Vem.
Não quero mais pensar nisso. Tu não és minha, não foste minha, não serás minha. Não há pertences nesse nosso jogo. Fomos almas juntas desfrutando de uns prazeres e algo mais.
Vá.
Abre tuas asas, corre pelas montanhas e plana em direção do mais caloroso sol sobre as colinas e planices de toda a felicidade que possa existir nesse mundo.
Vá.
Mas apenas vá. Tu, aqui, me prendes; tu, aqui, és lembrança, és remorso, és ruim para mim, sou ruim para ti.
Vá.
Antes que o tempo passe e a gente se arrependa do que ainda nem cometeu. Junta tuas coisas, coloca numa mala as metonímias e parte.
E ao desapego, um brinde.
"Eu sei: /jogos de amor são pra se jogar. /Ah, por favor, não vem me explicar /o que eu não sei /e o que eu já sei" (Me Liga - Paralamas do Sucesso)
31 Março, 2009
(O que não é) Soneto do Desapontamento
30 Março, 2009
Ao passo em que se passa a posse
Se tudo que te define é essa qualidade, e o que sou nada passa de teu dono - tal qual de tua posse.
Se as marcas do teu corpo têm as formas de minhas mãos; se teus traçados particulares se fizeram com a intensidade, maior ou menor, dos meus toques: mais suaves no rosto, menos no corpo.
Lembro-me hoje da tarde em que aconteceu. Pousei minhas mãos em teu pescoço e fui descendo-as vagarosamente pelo teu corpo, pelo colo, seios, dorso e costas, e parei-as em tuas coxas. Minha prima-obra perfeitamente perfeita estava completa.
Lembro-me, ainda, hoje, da noite em que aconteceu. Teus olhos nos meus braços em teu contorno teu rosto até ficar arrepiado. Perdi a respiração na tua e meus batimentos se confundiram com os teus, tão altos no contato de nossos corpos. Ali, naquele momento, fizeste-te minha; fizeste-me teu.
E tu, enquanto minha, jamais poderias me deixar.
"E hoje eu sei: /sem você sou pá furada. /Ai! Não me deixe aqui, /o sereno dói, /eu sei - me perdi, /mas eu só me acho em ti." (Los Hermanos - Paquetá)
29 Março, 2009
Claridade em dia de Tempestade
Que caiam sobre esse calor infernal ou em cima de alguém em especial, não importa. Mil raios e trovões.
Se antes não conseguia escrever, verborragia.
Se antes não conseguia enxergar, fotofobia.
Se antes não conseguia atentar, minúcia.
Se antes marasmo de um céu insosso, mil raios e trovões.
15 Março, 2009
Da arte de envelhecer
Todos passam por esse momento uma vez por ano, aquele fatídico dia, tal qual escolhemos como o melhor dia de todos os tempos: o nosso aniversário.
Digo nosso para existir maior catarse, mas, na verdade, eu falo pelo meu próprio. Ah, que maravilha: ganharei presentes, sairei para comemorar, reunirei família e amigos, todos os que gostam, e até uns que não gostam, de mim. Não é animador?
Estou ficando mais velho. Ganhando mais responsabilidades, conhecendo mais da vida e de mim mesmo, realizando mais coisas, conquistando mais objetivos, aproximando-me mais do que eu penso ser minha realização total. Não é animador?
Nesse ponto já passei por muitas coisas, não sou mais o que podem chamar de jovem sem experiência qualquer, já estou na faculdade, encaminhando meu futuro ou fazendo qualquer outra coisa que tenha a ver com minha realização profissional. Não é animador?
NÃO! NÃO É ANIMADOR.
Eu, novamente pelo meu próprio aniversário e meus próprios 19 anos em breve conquistados, afirmo: ficar velho é um saco. Um ano a mais que vivi e agora penso: por que não aproveitei mais as brincadeiras da infância, aquilo que chamo de brincadeiras da adolescência ou minha insuportável guerra contra o vestibular? Não que eu não tenha aproveitado... Até muito. Mas não há como não pensar que sempre há uma possibilidade de conseguir-se extrair alguma gotinha mais de felicidade de alguma memória minha.
Sou, pois, um recém chegado à velhice da alma. Agora, são presentes, comemorações, reuniões de família e amigos... tudo camuflando as minhas responsabilidades, objetivos, experiências, faculdades, futuro - ah, futuro que virará, daqui a um ano, passado já! - profissionalismo...
Dou-me essa semana, portanto, de férias. Férias da minha idade, dos meus pensamentos.
Durante uma semana inteirinha, não serei Henrique ou terei quase 19 anos. Um dia serei Henrique, outro Senhor Henrique, outro Mib; terei 6, 14, 11, 50, quantos anos eu quiser, nos momentos que quiser. Irei à escola, ao trabalho, à faculdade, fingirei doença para faltar prova, jogarei bola, nadarei, dançarei tango na Espanha, pedirei minha futura esposa em casamento, participarei do parto de meu filho com minha futura ex esposa, divorciarei-me, casarei de novo... ah, vamos viver tudo que há pra viver.
Pronto. Essa semana inteirinha inteirinha, eu vou ser qualquer um quando eu quiser.
E felizes aniversários para mim.
"Hoje, o tempo voa, amor... escorre pelas mãos mesmo sem se sentir! E não há tempo que volte, amor: vamos viver tudo o que há prá viver, vamos nos permitir!" (Tempos Modernos - Lulu Santos)
06 Fevereiro, 2009
Dos tantos rostos, qual deles?
Um dia frio e uma brisa enregelante que corre minha espinha com as lembranças de um passado, em memória, tão vivo e presente; em tempo, tão morto e longíquo. Ah, essas doces e malditas lembranças que insistem em assombrar-me.
E quanto mais eu sigo em certezas de que é para ser, dois passos retorno em medo, em angústia, na certeza do não. E o não tem sido tão forte.
Por que, simplesmente, então, não largar? Há outros rostos, tantos outros. Aquele sorriso é espelho do meu; aquela boca faz par com a minha; tal alma é amante da minha.
Rastejo, engatinho, ando, acelero, corro. Ganho asas e plano em direção a essas imensidões que são o relacionamento homem-mulher. Tirando o melhor de cada um, percebo, entrentanto, que a aurora seguinte demonstra não ser o ideal.
E aqueles sorrisos, bocas, almas e tudo mais que são meus, e mais, me dizem que há! Há, sim, o semblante ideal que venho insistentemente procurando.
É, inconsciente, porém, o fato de eu saber a quem pertence?
Se sei, se não sei, essa noite mais um rosto vai ao meu lado se postar. E durante todos os momentos, como a única, como a certa, ela será.
"Até amanhã eu vou ficar /e fazer do teu sorriso um abrigo. (...)/Canta para mim, /qualquer coisa assim /sobre você /que explique a minha paz: /tristeza nunca mais." (Casa Pré-Fabricada - Los Hermanos)
02 Fevereiro, 2009
Poema da composição menor
Explicar pra todo mundo o que eu quero,
me livrar de vez desse problema,
encontrar aquilo que há tanto tempo espero.
Eu queria escrever um livro...
Além de plantar uma árvore, ter um filho e outros tantos planos.
De vez em quando, esquecer todos esses meus desenganos,
e que me fossem perdoados os danos.
Queria contar uma história...
Uma daquelas lindas, cheias de aventuras e emoções
que enchessem minha vida da mais pura glória
e que, finalmente, tocassem os corações.
Ah, como eu queria tantas coisas...
Escrever livros, poemas, contar histórias.
Mas, depois de todo esse tempo, eu só queria uma coisa de verdade...
que se espalhasse pelo vento
e contasse a todos ao relento
da minha felicidade!
"A lua que brilha no céu /reflete, no meu caminhar, /a luz da inspiração /motivo pra gente compor /não falta e não há de faltar (...) /Pra expressar alegria ou dor /tudo é enredo na mente de um compositor." (A Lua de um Poeta - Diogo Nogueira)
15 Janeiro, 2009
Qualquer Adeus
O Adeus de quem fica
Eram tão seus os braços de meus abraços, que mais pareciam laços que nos prendiam e faziam-me pender para seu lado. Eram tão seus os risos dentro dos meus sorrisos, as imagens e confusões de toda a minha ilusão.
E de tudo que eu podia ter certeza, das palavras que me proferiu quando suas costas foram as últimas imagens guardadas em minha memória, de tudo que a mim pediu, nada cumpri.
Naquela manhã de sol em que o vento levemente batia em meu rosto, percebi que mudado tinha tudo. Sentou-me no sofá e afagou meus cabelos com suas mãos, como sempre suando. Li o desconforto em seu rosto e em cada gesto lançado bruscamente, era impossível eu não analisar o feito por você. Ah, esses gestos que já passaram tanto de bruscos para suaves e bruscos de novo em nossa história, por meu corpo, por minha alma, agora vinham-se virar contra mim.
Eu te amo. Era o que pensava, mas você não sabia, quando fui pega de surpresa por suas palavras. Achei que era mais uma daquelas vezes que você lia meus pensamentos perfeitamente.
Eu te amo, repetiu. Apertou suas mãos nos meus braços e foi descendo, percorrendo cada centímetro do seu objeto conhecido ali em sua frente. Abraçou-me e sussurou no meu ouvido para eu guardar as melhores lembranças do passado. Um último beijo, o último abraço, derreti-me em seus braços, o último amor, o último afago, o último riso, a primeira lágrima.
Fiquei deitada enquanto levantava-se, vestia-se, apanhava as malas prontas a um canto do corredor e saía porta afora, sabia eu, para nunca mais voltar.
As marcas de minha alma escorriam pelo meu rosto a cada passo que distanciava-se de mim. Fiquei deitada por não sei mais quanto tempo, não sei mais quantos dias. Mas, a minha impressão é de que nunca mais havia me levantado.
"Pois vá embora, por favor/Que não demora pra essa dor... sangrar" (A Outra - Los Hermanos)
O Adeus de quem parte
Era eu tão seu. Éramos nós felizes, não éramos?
Mas à mesma velocidade em que eu pensava isso e convencia-me do afirmativo, nós éramos felizes, minhas mãos arrumavam a mala aberta aos meus joelhos. O convencimento da felicidade veio junto ao pensamento de que não se precisa convencer-se dela; sente-se. Ao contrário, a plenitude não é verdadeira.
Esperei você chegar. Uma brisa quente de uma manhã de sol pegou seus cabelos. Linda, era tudo que eu conseguia pensar. Exatamente linda como naquele dia em que nos conhecemos, uma brisa, dessa vez fria, em você, uma brasa em mim.
Olhei o fundo de seus olhos e me vi no fundo de sua alma. Ah, tão fácil conversar com você que já sabe tudo que quero antes mesmo de pronunciado; tão difícil conversar com você que já sabe tudo que quero antes mesmo de pronunciado.
Ao nos sentarmos naquele sofá já tantas vezes testemunha de nosso amor, tive vontade de voltar atrás em minha decisão pela primeira vez. Seus olhos, doces e tempestuosos, entretanto, pareciam me insuflar: você já havia percebido o que ia acontecer. E ao invés de me segurar, aconselhava-me a ir, como se a coragem que tanto admirou em mim durante anos fosse evaporar caso desistisse.
Como tremia quando pus a mão sobre seu corpo e senti de novo a mesma vontade. Ali, onde nos amamos tantas vezes, mais uma vez me encontrei em você.
Na verdade, eu não compreendia o motivo de estar partindo e você sabia disso. Falei apenas para recordar do passado, trocamos um último beijo, o último abraço, derreteu-se em meus braços, o último amor, o último afago, o último riso. E ao levantar, vestir-me, pegar as malas e sair porta afora, uma lágrima molhou meu semblante.
Ali tive certeza: a vontade de voltar atrás jamais sumiria de mim; sempre, sempre eu pensaria o que teria sido se nada tivesse mudado, ou o futuro caso eu voltasse.
Mas eu nunca voltei. E apesar de cada lágrima, as quais apanharam-me nos dias de brisa quente que o cheiro de seu cabelo envolvia meu ar, eu segui.
"Vê se te alimenta/E não pensa que eu fui por não te amar" (Adeus Você - Los Hermanos)
06 Janeiro, 2009
Tudo aquilo que ela une
Ah, tem um ar misterioso, como se as águas doces de um rio estivessem turvas à minha visão... ah, em contrapartida, parece tão fácil solucionar suas dúvidas, decifrar seus sentimentos como a mais límpida água transparente de um mar.
Tudo, todas as coisas: terra, fogo, sentimento fundo de água e leveza do ar.
Em tudo, em todas as coisas ela está. Mas, principalmente, tá no vazio que me dá quando eu vejo a tarde cair e ela não está. Vazio que enche com o cair da tarde e esvazia com o nascer do outro dia.
De certo, ela sabe, ou melhor, ela lembra, de tudo que eu preciso sentir. Ah, mudei, aliás, mudamos. E se os sentimentos também mudaram, ela só precisa existir pra me completar... e basta.
E quando eu olho pro horizonte, já tem a união entre o mar e meu olhar comprovando que sim, basta.
As quatros estações, o fim das bifurcações, o fim das minhas dúvidas, dos meus desencontros...
Tudo, todas as coisas. Porque isso, certamente, basta.
05 Janeiro, 2009
But I still haven't found what I'm looking for

Ele girou a maçaneta, entrou no quarto escuro e deitou-se na cama. Eram por demais exagerados os pensamentos em sua cabeça. A verdade é: não conseguia nem se concentrar no que pensava, não lembrava do assunto há poucos instantes refletido, antes de ser mudado em uma pausa dramática na ópera trágica que passava-se em sua mente. Ligou a vitrola dada anos antes pelo avô - ah, seu Antônio havia guardado e conservado tão cuidadosa e carinhosamente; aquele era o presente do qual mais gostava o rapaz.
Tocava um dos discos mais antigos que tinha: nem do nome da cantora ele conseguia lembrar-se, mas a voz ecoou dentro de seus conturbados pensamentos e o acalmou. Tocou-a durante uns instantes, muitos instantes, instantes demais. Adormeceu. Quando acordou, resolveu continuar a escutar música e pôs um disco do U2. Antigo, também com uma música tantas vezes regravada.
Buscou em sua memória as aulas do curso de inglês pago por seu pai. O vocalista cantava algo que dizia: "But I still haven't found what I'm looking for". Conseguiu traduzir a sentença pra uma realidade que, mesmo após o término da música, permaneceu em sua cabeça: "mas eu ainda não encontrei o que estou procurando".
Era isso, devia ser, o que estava causando tanta agitação nos pensamentos do rapaz a ponto de não conseguir organizá-los. Existia uma incompletude, uma sensação de abandono, de solidão, a qual, para uma mente desavisada, podia se camuflar e confundir como carência. Deve-se, neste ponto, atentar, porém, que não era. Era, de fato, um abandono, uma solidão, mas não dessas facilmente imaginadas; não era física, não se resolvia em encontros... era da alma.
Mas, voltando ao questionamento principal, o que ele estava buscando? E como, poderia ele encontrar se nem sabia o que desejava?
Na verdade, ele estava procurando nada. Não era de seu interesse fazer esse jogo de busca através de um tempo não pertencente a ele. O rapaz deveria empreender seus momentos em achados casuais.
Recolocou o antigo disco da cantora desconhecida na vitrola e ligou a televisão para dublar as palavras do jornalista enquanto escutava a música. Decidiu parar de se preocupar com aquilo que havia gasto tanto de seu tempo naquele dia. Pararia de beber, arranjaria um emprego e, às vezes, dançaria um tango argentino. Quem sabe a alma dele não se deparava inusitadamente com o que solucionaria a sensação?
04 Janeiro, 2009
O abismo que é pensar e sentir
Travessas eu ando, paro nas árvores, vejo o escafandro da vida se fazer em formas de pássaros aprisionados imersos no ar. Meus pensamentos devaneiam, procuram referências do porquê estou pensando a respeito.
Ando mais um pouco, avistei a Lagoa, vi o Cristo, banhei-me no Leblon. Passeei os mais bonitos lugares, ainda penso na incompletude das informações, diante dos meus olhos se fazem irracionais.
Esse lirismo todo encontrado no mundo é próprio dele ou é próprio de mim? Seria eu um eu-lírico preso a uma sucessão de fatos não podendo compreender literalmente?
Ponho o pôr do sol na palma da mão. Vê aquelas nuvens, acompanha a linha da vida, a linha do amor, as nuvens da vida, as nuvens do amor. Vêm seguindo o céu, vêm seguindo a palma da minha mão, chega ao meu coração.
Pular, estagnar, pés presos no chão, asas pra voar? Escolhi pensar.
Fizeram-se doces os pensamentos, meus companheiros; tive-os naquela tarde olhando o pôr do sol no Arpoador.
"De tanto eu te falar você subverteu /o que era um sentimento /e assim fez dele razão /Pra se perder no abismo que é pensar e sentir" (Sentimental - Los Hermanos)
03 Janeiro, 2009
Correspondências; eu Amado, ela Andrade!
Desça do trem e me convide para uma loucura que me permita o movimento e vamos transformar todo texto antigo em um novo ato. Olhar correr deixar saudar sorrir abraçar observar ruborizar desafiar sentir permitir permutar tecer aproveitar. Vem que já meia o verão e a cidade transborda a beleza das cores e toda essa geografia atenta para fazer parte do seu quadro. Na nossa foto. Quero compor a canção para tocar no violão que nunca aprendi e que será só tua, somente tua, e cada vez mais nossa. Deixe a noite virar dia e no brinde das taças a gente sente o pulso acelerar ao menor toque que é também o maior.A gente percebe que se encontrou, que no meio da correria, teu braço acenou e eu respondi ao teu chamado, ao teu convite sem lógica que me encanta como se tudo fizesse sentido, como se fosse mais simples.
Aqui é possível. Acredito que seja possível em todos os lugares, mas falo por mim: do umbigo que me autoriza. Sendo assim, aqui é possível o encontro e ousaria, o encanto. Embriagados, sem que esse seja um motivo a mais pra querer tua presença, eu me deixo levar e me deixando levar, percebo o quanto é delicada e singular e enorme e também poderosa - fortalezas também podem ser delicadas - as nossas intenções. Sem aquela velha mania mascarada de querer parecer alguém que nunca existiu, teus olhos nos meus dispensam a cena da maneira inédita, debutamos juntos na cena de personagens que existem e que não são mais cena. Dispensamos a platéia. Apagamos os refletores e é no mínimo que a gente se esbarra. Que a gente sorri o encanto. Sem vaias, aplausos, burburinhos, publicidade.
A soma da tua história na soma da minha história e somos duas pessoas que sequer imaginavam a possibilidade viva de um e o outro, no outro do um. Um brinde em sorrisos de olhos atentos que acontecem sem que precisemos de permissão.
Ele vem. Eu vou. Tantos meses. Tanto. Eu respondo tuas inquisições dizendo que fico feliz pelo carinho que gera confiança e é importante saber que posso cair nos teus braços. Que posso deitar nos teus braços. Que posso sempre optar pelo abraço. Na soma de tudo, a gente sempre se esbarra. E cada ponto final termina onde você encaixa aquela vírgula sem lugar. E percebe que era motivo suficiente o bem querer.
Desça do trem e corra comigo um sorriso, escreva em conjunto um carinho, perceba que toda a amizade é verdadeira e frutífera. E verdadeira, e possível, e real, e indelével.
Desça do trem que já não há mais ipês. Anda logo, coisinha, que a saudade ainda vai bater no teto. Até um canalha precisa de afeto. Dor não cura com penicilina...
carinho paulisa-mineiro-cariocas,Nick Manes."
"8 de dezembro de 2008.
Faz lua no céu, as estrelas brilham um certo brilho já visto antes e não reparado antes.Será que faz lua e brilha onde você está? Ouvi dizer que pra lá do vento da saudade não tem, mas não acredito não. Estou certo de que o vento que ai te ventas, venta aqui dentro, seja calor ou frio, seja sol ou lua.
8 de dezembro de 2008.
Hoje é o dia de todos os sentimentos. Hoje é o dia de esvaziar-se de sentimentos. O padre aqui da paróquia disse para acendermos uma vela e deixar o coração ao relento e esfriá-lo. Mas não acredito não. Meu coração tá sempre assim, tão quente, que não sinto a geada que começou a vir agora há pouco.
8 de dezembro de 2008.Escutei no rádio novos anúncios do Obama, mas na verdade pensava na voz anasalada do locutor. Será que existe um sindicato para eles? Digo para aqueles que têm voz anasalada, não para os locutores de rádio, afinal os últimos não merecem: é certa a manipulação comunista por trás dos comentários deles. Dizem serem bons, mas não acredito não.
8 de dezembro de 2008.
Acabou de chegar a carta que você me escreveu há duas semanas dizendo que ia partir. Aproximei-a do rosto e senti teu perfume que me lembra o Guarujá em dia de sol e vi a orla de Salvador diante de mim. Disse que os ipês se abriam, os contadores zeravam e o Rio de Janeiro estava entediante. Se mandaria com umas maçãs e algo mais para uma cidade que houvesse mais festas. Mas não acredito não. Mamãe sempre disse que a Cidade Maravilhosa não tem comparação com as outas.
8 de dezembro de 2008.
Quando te levei na rodoviária, percebi que não tinha como te tirar de dentro do navio. Ia navegar suas águas intempestivas num mar mais agitado que a minha lagoa cotidiana. Percebi que, na vida, a gente abre mão, às vezes, do que não quer e que pessoas que marcam, não precisam estar por perto. Mas não acredito nisso não. Lembra daquele coração aquecido e da lagoa branda? Aproximam-me-te. A onda provocada continua a existir. E ecoa aqui dentro a perpetuação: pra sempre, pra sempre, pra sem...p...r..!
Na minha torneira da vida, o gota-a-gota nunca pára de contar. Saudade."








