11 abril, 2016

Distância

Os anos não podem ser medidos em anos.
Os anos devem ser medidos em quilômetros.
A quantos quilômetros por hora passou a sua vida
E você, distraído, nem viu?
A quantos quilômetro você estava 
quando uma criança nasceu,
Um ente querido morreu,
A rotina chegou?

Depois de um tempo,
A distância - essa maldita -
Parece te definir, não
Importa a quem se peça,
São Paulo ou São Pedro,
Quem sou eu?
Quem esteve à margem
Por todo este tempo!

E eu Rio, Rio muito,
De Janeiro a Fevereiro,
Para tentar trazer a 
Leveza necessária à vida
De quem a distância
- essa companheira -
Tirou tantas coisas.

Distância de tanto
Amor
De tanta vida
Mas principalmente
Distância de mim mesmo.

10 abril, 2016

Hiato

Meu amor - ou qualquer dos tantos nomes
que nos demos na intimidade
e que só poderia tê-los dado a você,

escrevo para dizer o que não consegui
- e talvez nunca consiga - falar.
Tranquiliza seu coração, fica em paz.
Eu tô bem, apesar de tudo.

Nada podia me preparar, confesso,
para esse doce e delicado rompante.
Mas, agora, resta o seguir.

E há muito, ainda, a seguir.
Eu, por exemplo, vou seguir
uma estrada qualquer que me leve
a uma breve saudade
- toda sexta, ela diminui;
você, tantos caminhos,
duros de lei e doces de brigadeiros.
E, nós, a rir! Um dia, vamos rir
disso tudo e de todo o mais.

E, apesar de tudo,
do aperto calado,
do rosto molhado
pelo medo e pela incerteza,
eu não faria nada diferente!

O hoje não muda nada!
Foram 2480 dias
dos melhores e piores
cheios de coisa errada
cheios de brigas e defeitos
e cheios de nós
de muito amor
do nosso amor

Amor, meu,
meu amor,
que há de continuar
e seguir os tantos,
e quantos planos fizemos.

Mas, se o plano falhar,
se não chegarmos a ter mais 500,
como te prometi, não importa:
tenho 2480 lembranças
- maravilhosas -
tudo valeu a pena e eu
só posso agradecer por tudo
e por ter dividido
e vivido
uma história de um amor
tão incrível, tão intenso
e tão amado quanto esse!

O irônico, meu bem,
é que logo eu,
que nunca pensei viver assim,
precisando tanto de alguém,
não faria nada diferente!


"The truth is you never know / so I'll kiss you longer baby / any chance that I get / I'll make the most of the minutes and love with no regrets"

09 dezembro, 2014

Um fim e um início

Início!

Hoje, três anos se passaram do início.
Seu início, dolorido, sofrido e vencido.
Dessa dor que costumo pensar que só eu
e você conhecemos
(ainda que tanta gente por ai sofra por muito mais!).

Hoje, um fim para esse sofrimento,
para esse capítulo, para esse momento,
para nós de certa forma.
Um reinício para você
e o meu início, dolorido, sofrido
e a vencer!

Porque nós vamos vencer! Temos de vencer!
Este é o (re)início da nossa vitória.

E quem ousaria dizer o contrário?
Já viemos, já vivemos, já vencemos;
Iniciamos e finalizamos!
Um eterno ciclo de inícios,
cruzando-se sem fim.

Está na hora de partir
e deixar para trás tudo:
As dores São Paulatinamente superadas.

E lembre-se:
Nenhum Presidente será capaz de nos separar!
Como diria o apóstolo Paulo: O amor
tudo espera,
tudo suporta,
o amor jamais acaba.

Fim!

14 abril, 2014

Minha Pequena Grande Saudade

Hoje, em mais uma
das várias vezes em que me senti assim,
sofri por não poder estar ao seu lado.
A vida nos trouxe até aqui,
separados,
por mais que sempre tenhamos o desejo de estar juntos.
Afinal, somos um o outro, cuspidos e escarrados,
meia dúzia de diferenças diante da imensidão de similitudes
- que começa no sobrenome e termina na última gota de sangue.

Durante tanto tempo - e, quem sabe, ainda hoje,
fomos só nós dois, na certeza
de que enquanto tivermos um ao outro,
seremos capazes de tudo. E somos!
Passamos por tanta coisa, tanta alegria e tanta tristeza,
sempre juntos, que desacostumamos
a ter o que sofrer ou comemorar sozinhos:
o riso não é o mesmo, a lágrima
desacompanhada.

A notícia pesada, contada em tão leve tom,
anuncia que é só mais um dia.
- Mas que dia interminável!
Que vida interminável
quando não se está ao lado de quem se ama?

Queria poder te acompanhar
nesse e em todo momento,
por qualquer lugar aonde for.
Queria poder ser do contra, te defender,
de tudo e todos aqueles estão ai,
atravancando seu caminho.
Queria poder, sobretudo,
te dar o conforto no peito de que hoje
- e sempre - vai ficar tudo bem
e que nada disso importa:
continuaremos a vencer,
a amar e a colher,
sempre juntos!

Nem as centenas de quilômetros
são capazes de calar nossa voz:
Consegue me ouvir dai?
Se sim, repita sempre:
Quando tiver dúvidas, persista!
Quando sentir medo, ore!
Quando cambalear, enrijeça!
Às vezes, grite, desespere,
esperneie, e depois dance
- você tem todo o direito.
E, se precisar, endureça,
mas sem nunca perder a ternura!

E lembre-se: a vida é uma,
mas somos dois para vivê-la.
Esteja forte, por nós;
estarei aqui fazendo o mesmo!

05 abril, 2014

Silêncio

Neste momento, você dorme ao meu lado. A cama, que em outros tempos fora tão grande, hoje, me cabe perfeitamente quando tenho você aqui, perto a noite toda - ainda que só consigamos manter as pernas entre as pernas pelos primeiros quinze minutos... depois, é cada um pro seu lado.
Encaro você dormindo e seu sono silente só é interrompido pelo ar condicionado: tá tão frio que, vez ou outra, você treme abruptamente e eu prendo a respiração, pedindo para você não acordar. Não saberia o que dizer - como já não tenho sabido faz algum tempo. Há, em todo momento, em toda conversa, um silêncio constrangedor entre nós. A culpa é minha, eu sei: dentro de mim, gritos; fora, um silêncio estarrecedor.
Queria saber dizer, sem perder a respiração, a lógica e a serenidade, que meu amor por você é imensurável e que nunca senti por ninguém nada parecido. Nossa história - já não tão curta - é toda peculiar e mudou completamente meu jeito de ser e enxergar as coisas. Meu sorriso nunca teve companhia melhor. Meu sorriso: aquele que você disse ser o que mais gosta em mim!
Queria te falar que todos os planos que temos feito, ainda que em devaneios imprecisos, são desejos latentes no meu peito, para os quais fujo sempre que preciso de um acalanto. Queria, ainda, poder dizer tanta coisa sobre nosso amor antes de dizer verdadeiramente o que preciso mas não consigo...
Estou com medo! Por várias coisas, mas principalmente por nós.
Tinha indubitável certeza de que o que estou fazendo era por nós, para o nosso crescimento, mas a cada momento que passa, me sinto mais egoísta: será mesmo que tudo isso é por nós ou é só por mim? Será que vamos conseguir lidar com esta situação ou estou colocando uma barreira que não vamos conseguir superar? Será que a distância física e a distância emocional acabam inevitavelmente se misturando? São tantos serás...
Queria te mostrar a segurança que me é característica também nessa hora, mas não dá, não consigo! A voz embarga, as lágrimas ocasionalmente aparecem quando toca uma das nossas músicas e surge mais uma vez o silêncio ensurdecedor que está entre nós nos últimos tempos. Estou com medo inclusive de mostrar que estou com medo.
Neste momento, você dorme ao meu lado. Eu sussurro baixinho tudo que preciso dizer, mas não consigo. Alto, só o ar condicionado que faz barulho. O silêncio continua aqui, sufocante. Você, dormindo serena, parece entender tudo que precisamos conversar, mas não fazemos. Queria que você ouvisse a voz que grita dentro de mim o quanto te ama. Mas, não.
Entre nós, além do amor, silêncio.

11 junho, 2013

Mesma moeda

Acordei exaltado, num rompante. Mesmo com a brutalidade do movimento, você continuou dormindo serena, a respiração marcando o que devia ser seu sonho que mais tarde me contaria entre risadas.
Enquanto eu observava você dormindo, lembrei do que me havia feito desesperar e agora era um sentimento crescente dentro do meu peito: senti que te perdia, de uma vez por todas.
E eu não podia aguentar isso! De uns tempos para cá, tenho pensado que, inevitavelmente, isso vai acontecer. Sinto um pedaço do meu peito queimar, estilhaçar de tristeza. Jamais havia entendido o real significado de alguma coisa fazer doer pela tristeza que sentimos, mas agora sei. Sei como é sentir o calafrio na espinha, o literal aperto dentro do coração, a angústia tomando conta de todos os órgãos, dando a sensação de que eles podem deixar de funcionar a qualquer momento de tanta tristeza. Sei como é deixar as lágrimas verterem incontrolável e inexplicavelmente dos nossos olhos, como se fossem uma tentativa de levar para fora e de uma vez por todas essa desesperança lancinante que está aqui por dentro, debaixo da pele.
O amor dói. E sufoca de tanta dor na mesma medida em que apazígua, completa e acalenta.

06 dezembro, 2012

500 Melhores Dias Com Ela

Guarde este dia!

Ele não será o dia mais importante do nosso relacionamento.

Antes de hoje, tivemos dias mais importantes: a primeira vez que dissemos que nos amávamos, quando te pedi em namoro, nossa primeira vez, nossa primeira briga... em verdade, toda noite que dormimos juntos é o dia mais importante até aquela data.

Amanhã, teremos outros tantos dias mais importantes: sua formatura, nossa primeira viagem, minha formatura, nossas conquistas, nosso casamento, filhos... quem sabe?!. Diante disso tudo, hoje não será o dia mais importante do nosso relacionamento!

Mas hoje é o dia em que você não precisa nunca duvidar do meu amor: quero lhe dizer que você pode ter certeza do quanto eu te amo, te quero e preciso de você; que você é a melhor coisa que me aconteceu nos últimos e longos tempos; e que, hoje, eu não consigo mais pensar em viver sem você.

Então, guarda esse dia: independentemente do que já passou e do que ainda tem para vir, hoje é o dia em que você pode dormir e acordar sabendo que você é a mulher mais amada e desejada desse mundo -mesmo que meu jeito de amar seja esse jeito meio torto.

Quero te fazer feliz! Neste dia e em todos os dias mais importantes do nosso relacionamento.

"Do nosso amor, a gente é quem sabe, pequena! / Ah, vai, me diz o que é o sufoco,/ que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar. / (...)Ah, vai, me diz o que é o sossego que eu te mostro alguém /a fim de te acompanhar/ E se o tempo for te levar, /eu sigo essa hora e pego carona/ pra te acompanhar" (Último Romance - Los Hermanos)

14 agosto, 2012

Quatro Estações (em uma noite!)

Sonhei azul. Era o céu acima, no mar em volta, que dizia exatamente estarmos no verão. No meu sonho, quer dizer! Afinal, lá fora faz 10 graus enquanto me enrolo no seu corpo aqui. Entre os lençóis, nunca vivemos inverno.
Mesmo quando me escapa entre os dedos, pelo suor do corpo para tomar um banho, não tenho inverno. Seu corpo suavemente descreve o mesmo movimento que a folha da árvore faz no outono.
E quando volta, gelada e cheirosa, só para me acordar do cochilo e rir da minha cara amassada, anuncia a primavera, que passa voando, relembrando a beleza que é estar com quem se quer e, principalmente, abrindo caminho para o verão.
Inverno, não quero! Deixo pros outros, pode ser que alguém goste.

27 julho, 2012

Sonho

Gosto mais de você quando você está dormindo.
Agora mesmo, enquanto olho nos seus olhos fechados, e vejo-a sonhando, mal consigo parar de sorrir. É tanta a paz que transmite, invade meu corpo e não preciso mais dormir. Às vezes, você solta uma risadinha, baixa, entre dentes, e sei que nos encontramos no seu sonho.

Logo depois, vem a minha seqüência preferida: um suspiro profundo e suas mãos me puxando mais pra perto, pra sua perna poder ficar entre as minhas.
Não preciso que me diga nada para que perceba que você me quer ali, que precisa de mim ali. E eu atendo a seu pedido silencioso, cobrindo-me com seu corpo leve. A partir de então, não sei se o sonho é meu ou seu.
Gosto mais de você nesse silêncio, que é quando me diz mais. E a noite, nossa companheira, sempre brinda com a gente. O amanhecer, pra mim, é um pouco melancólico.
Não tem problema: eu espero pela noite seguinte.
Amanhã de madrugada, vou gostar ainda mais de você.
Então, fica.
E boa noite.


"Soñe que el fuego heló /Soñé que la nieve ardia /Y por soñar lo impossible, ay, ay, /Soñe que tu me querias." (Chico Buarque - Outros Sonhos)

05 julho, 2012

Soma Perfeita

Você é assim,
sem tirar nem por,
a mistura de tudo que vejo em mim.

Encaixe perfeito:
minhas pernas nas suas;
meus braços em seus abraços;
sua cabeça em meu peito;
a minha no seu cafuné.

E de tudo que passamos,
só lembro do seu sorriso,
seu corpo e seus olhos,
que harmoniosos
festejaram comigo.

Você é a melhor lembrança
do que eu ainda nem vivi!

19 fevereiro, 2012

1/2

Percebi que nós dois não somos bem dois. Não estou inteiro: em algum lugar por aí, perdi um pedaço com alguém e ainda não reconstruí essa parte que me falta. E, por isso, não posso te dar o que você quer - e merece!
Mas, ao mesmo tempo que percebi isso, não consigo pedir de volta minha metade que você guarda consigo. É covardia, é egoísmo, eu sei, mas prefiro ter você inteira e só te oferecer uma fração minha do que não te ter. Será isso suficiente? Será que viver assim, em partes, é suficiente?
Porque, na realidade, venho fingindo que vivo, enquanto a vida de verdade passa diante dos meus olhos.Vou brincando de viver até que possa, finalmente, viver para brincar novamente. E, assim, te peço: me acompanha enquanto puder?



"What use is a paper heart, when you're stuck in the rain, stuck in the rain (...) /So damn me and my paper heart in this pouring rain" (Paper Heart - David Cook)

13 novembro, 2011

Cúmplices

É engraçada essa nossa cumplicidade.

Mas foi assim desde que nos conhecemos, no lado mais leste do mundo. A vista que tínhamos do oceano era pequena pro que eu enxergava dentro dos seus olhos: uma ambição boa, a vontade de conhecer tudo, de saber de tudo, de ser mais.

E em todos os dias que se seguiram, nos completamos no que pudemos. Acertamos, falhamos, rimos, somamos... e seguimos! Seguimos porque somos mais de asas que de raízes, preferimos o ir ao ficar, justamente porque no ir há sempre o voltar - ou não! O ficar não nos trás nada de novo.

E se o cotidiano foi trocado pelo esporádico, se os encontros tornaram-se ocasionais, se os dois tornaram-se 1, afinal carrego metade de você ainda dentro de mim... a cumplicidade, esta não acabou jamais!

27 agosto, 2011

Estranhos... de certa maneira

Somos indiferentes um ao outro... de certa maneira.
Nunca conseguirei olhar com total indiferença tudo que vivemos, principalmente nossos últimos momentos juntos... Gostaria verdadeiramente que tivessem sido bons, que tivéssemos feito tudo diferente. Hoje, pouco importa quem errou, mais ou menos, antes ou depois: a verdade é que nossa história não se resume a eles, mas não consigo separar nossas memórias desses momentos.
Mesmo assim, de certa maneira, somos indiferentes um ao outro. Ainda que, em raras ocasiões, lembre de você e sinta saudade ou raiva, faz tempo que não ouço qualquer notícia sua - e nem quero. Não sei se está feliz ou triste, e sequer sei se me importo. Espero que esteja feliz, à sua maneira! Será que você conseguiu fazer aquelas viagens sobre as quais conversávamos, conquistar aquelas metas que você tinha traçado, ido em frente com os planos que havíamos feito?
É estranho não me importar com isso! Um dia, há algum tempo, dividimos os planos, os sonhos, a cama e a vida em geral... Nunca poderia imaginar que você se tornaria apenas alguém que eu costumava conhecer. Jamais poderei dizer se isso tudo foi necessário, se nossas atitudes fizeram que chegássemos a este ponto ou se a vida simplesmente caminhou para isso e não fizemos nada para impedir. Não importa! O fato é que nós, outrora íntimos, quase inseparáveis, hoje não passamos de estranhos um para o outro.


"Now and then I think of all the times you screwed me over(...) /And I don't even need your love /But you treat me like a stranges and that feels so rough(...) /Now you're just somebody that I used to know" (Somebody That I Used To Know - Gotye)

Contíguos

Ontem, lembrei de você.

Lembrei do seu rosto, seu sorriso, sua voz rouca de tanto rir, suas manias, suas aflições, seus desejos, seu cheiro, calor, gosto, textura que descobri enquanto estávamos juntos, sempre juntos.
Lembrei de nós dois, rindo de tudo e de todos, achando que estávamos no início de uma estrada longa em direção ao futuro, que percorreríamos juntos, sempre juntos.
Lembrei do pôr do sol, dos segredos, da nossa história, das viagens, das noites em claro, das certezas dos nossos corpos juntos, sempre juntos.
Lembrei dos pequenos passos que fomos dando - para frente e para trás, das pedras no caminho, dos problemas, das tristezas, das brigas que tivemos juntos, sempre juntos.
Lembrei da falta de consideração, das lágrimas, daquela tarde, dos gritos e sussurros que ecoavam de nós insistindo que estávamos errados ao decidirmos que seguiríamos separados.
Nunca mais dois, nunca mais juntos!

Amanhã, vou lembrar de você e de tudo isso que me faz silenciosamente desesperar de tanta saudade, alegria, raiva, culpa e tristeza, de tanto amor ao que vivemos. Você e eu. Juntos!




29 julho, 2011

Meias palavras

A pior que coisa que a gente pode fazer é não dizer o que quer.
Porque a meia-palavra é sempre pior que a palavra por inteira, mesmo que esta machuque, fira, rasgue ou dilacere.
A meia-palavra, não! Ela é um pequena agulha, que te fura mil vezes, todas aquelas que você remói no pensamento o que a pessoa quis dizer com aquilo. Não é honesto, nem com quem a pronuncia e nem com quem vai digeri-la.

O que eu queria te dizer... ah, deixa pra lá!

16 maio, 2011

Demais

Nos perdemos ao longo do tempo.
Um do outro (e de nós mesmos).

E o problema disso é
que nos conhecemos
demais!

Esgotaram-se os olhares surpresos,
as respirações ofegantes,
as sensações diversas
a tudo - bom e ruim.

Vivemos demais, como pudemos,
tudo que podíamos viver,
sem pensar que isto
poderia acontecer.

E na mesma medida que juro
nunca mais te ver,
nunca mais te querer...
encontro meu eu!
seu você e o nosso a gente
(de longo tempo).

Volta a minha surpresa:
de que, ainda hoje, possam existir
os olhares, a respiração e as sensações
mesmo que nas lembranças.

Nosso problema é esse.
Você me conhece demais
para não perceber
que não sei
o que fazer,
mas que não fico longe de você.

"Entre nós dois, /não cabe mais nenhum segredo /além do que já combinamos /no vão das coisas que a gente disse /(...)Se eu tento esconder meias verdades, /você conhece o meu sorriso, /lê o meu olhar... /meu sorriso é só disfarce /que eu já nem preciso." (Quem de nós Dois - Ana Carolina)

06 maio, 2011

Melhor Tempero

Ainda agora, desci para fazer um lanche. Peguei um pacote de pão de forma e olhei ao redor para procurar o que usaria para montar o sanduíche perfeito.
Acabei optando por um tempero simples: uma pitada de saudade. Cortei uma banana em fatias e juntei a duas de queijo; esquentei no grill e uns momentos depois já estava pronto.
Para beber, bati leite com nescau no liquidificador e fiz o que você, carinhosamente, chamava de leitinho. Para adoçar, saudade.
Cada mordida ou gole era um mergulho em memórias, lembranças boas de tempos atrás. Tempos em que a vida era mais fácil, amar era mais fácil e fazer sanduíches era mais fácil. É disso que tenho saudades.
Poderia usar disto para dizer que, fosse uma ou outra atitude diferente, talvez até hoje estivéssemos fazendo este lanche juntos. Mas isso não importa. Não desejo buscar respostas, culpados e verdades. A vida é doce demais - e amarga na mesma medida - para se remoer.
Saudade, mesmo, eu tenho do tempo, da vida, dos momentos.
Ao fim do lanche, apenas uma satisfação. Não sei se por conta do calor no estômago (ou no coração).

Os mais pragmáticos acham que o melhor tempero é a fome. Já eu, a saudade.

16 fevereiro, 2011

Enganos e Desenganos

O maior aprendizado que podemos ter é o que nos ensina a lidar com os enganos.
Afinal, o que está constantemente tumultuando nossas vidas é o acaso e seus desdobramentos. Todos sabem que o enganar-se não é preciso. Porque não adianta qual seja a situação, sempre temos um palpite de como ela se desenrolará. Às vezes o palpite está com a certeza; às vezes, com a quase certeza; e em outras, nem ousamos colocar a mão no fogo por ele. Mas, não adianta negar, e quem disser o contrário está mentindo: sempre temos um palpite, qual seja a situação.
Se nossos palpites sempre se confirmassem, a vida não teria surpresas. Sejam estas surpresas boas ou ruins, aprender a superá-las, reagir ao inesperado de forma correta, principalmente quando as surpresas são do segundo tipo, é muito difícil - e necessário. Por isso, repito: o maior aprendizado que podemos ter é o que nos ensina a lidar com os enganos.

Enganar-se não é preciso, mas é preciso se enganar.


"Buscando um novo rumo que faça sentido /nesse mundo louco /com o coração partido, eu /tomo cuidado /pra que os desequilibrados /não abalem minha fé, /pra eu enfrentar /com otimismo essa loucura." (Pontes Indestrutíveis - Charlie Brown Jr.)

07 fevereiro, 2011

Sorrisos em Forma de Sol

Hoje, peguei uma antiga foto nossa.
Aquela mais bonita, em que fomos prestigiar o por-do-sol pertinho dele. Eu realmente queria te impressionar naquele dia. E acho que consegui. Foi um dos melhores que passamos.
Lembro perfeitamente de como tudo correu. Dormimos aqui, você acordou primeiro que eu, como de costume. Mau-humorada, também como de costume, levantou e foi tomar um banho. Voltou pro quarto para me acordar, afinal a pia estava suja. Ah, suas manias, tantas, e únicas.
Levantei trôpego, com a samba-canção que me trouxe da Disney. Lavei a pia com cuidado e o sono sumiu! Sentei e fiquei detalhadamente olhando pra você, que não sabia como era linda logo depois de acordar. O seu primeiro pensamento, a primeira palavra, a primeira risada rouca que dava eram fontes de energia prum dia inteiro. Reparei que você estava usando uma cueca minha, afinal não tínhamos combinado de que você ia dormir lá em casa. Você não tinha trazido camisola ou calcinha, e resolveu dormir com aquela cueca vermelha que também tinha me sido dada por você.
Enquanto escovava o dente, você fingia que continuava mau-humorada. Mas seu risinho no canto da boca nunca me engana. Te puxei pra dentro do banho, que pareceu toda uma eternidade.
Saímos e fomos pra sua casa pegar seus documentos. Entre aquela bagunça que estava sua recém mudança, deitamos e ficamos mais outra eternidade. Não parecia que tanto tempo tinha passado, até que o cachorro veio nos avisar que já passavam das 4.
Não sei da onde surgiu a idéia de irmos ao Cristo Redentor. Mas fomos, com um sanduíche na mão pra não perdermos tempo.
E, então, naquela tarde, acompanhei duas das coisas mais bonitas que vi na vida: o por do sol iluminando a cidade do Rio de Janeiro; e você, justamente iluminada pela luz desse mesmo por do sol, competindo com a beleza do Rio, com sua camisa do Milan.
Acho que disso nunca mais esqueço!
Pensei em tudo isso - em apenas 1 segundo - enquanto olhava para nossa foto. Enquanto devaneava em pensamentos, você me encarava. Entre o sorriso, um olhar que nunca tinha percebido. Sua expressão nunca fora aquela!
Não sei se de fato tudo tinha mudado, ou se era eu mesmo quem me julgava através dos seus olhos. Como pode alguém deixar escapar o seu próprio por do sol?!


"Of all the things I felt I've never really showed /perhaps the worst is that I ever let you go: /should not ever let you go! /It's not over tonight, /just give me one more chance to make it right/ I may not get through the night /I won't go home without you!" (Won't go home without you - Maroon 5)

11 janeiro, 2011

Tarde de Verão

Você é apenas uma tarde de verão.
Daquelas que começam com calor que te fazem transpirar,
e bufar, e cansar, e encostar, e parar...

De repente, tudo muda:
"Olha a Chuva!"
Chuva é pouco: tempestade
pronta para abrir os olhos,
escorrer a água, e as lágrimas,
e encher qualquer espacinho;
chuva que lava a alma,
enche as comportas, enche as represas,
enche os rios, enche as pessoas
de esperança, de apreensão, de medo
e felicidade.

Só de saber que daqui a uma hora tudo isso vai
mudar...

Você é uma tarde de verão.
Com todos os gostos, sensações,
ventos, ânimos, sol, chuva, praia
e intensidade.
Na verdade, desde o princípio,
Essa tarde de verão é o que você provoca
Em mim
(em uma hora).

04 outubro, 2010

Entre Partidas e Memórias

Ontem. Se lembra?
Nos conhecíamos há poucas horas e nos despedíamos para nunca mais ver. Pelo menos era o que parecia. Parecia muito mais, uma vida inteira. E na verdade foi. Todas os dias, as tardes, as noites e as madrugadas (Ah, as madrugadas). Ininterruptamente nessa seqüência, mas sem nunca cair na rotina.
Até ontem. Ontem foi a primeira vez que quis ir para um lado diferente do seu.
E vou. Porque preciso, e porque é melhor. Se lembra?
Estamos sempre atrás do melhor, há um tempo juntos, uma vida inteira.
Não levo nada a não ser as lembranças que escolhi. Pode ficar com o resto, mas por favor, guarde tudo com carinho, senão quebra.
E lembre-se: memórias e afeto não se colam com super-bonder.

03 outubro, 2010

Sujeito Indeterminado

Sua regra é a intensidade.
Com você, tudo é ou preto
ou branco, não existe colorido,
não existem os tons amenos,
tantos, entre as extremidades.

Já eu, sou assim: medíocre.
Mas gosto: gosto do mais ou menos,
às vezes mais, às vezes menos,
na maioria, talvez.
Gosto da parcimônia, de escolher
entre o bom e o ruim,
entre mim e você.

Você acha que não demos certo.
Se não ficam juntos pra sempre,
é o caos, a verdadeira catástrofe
da vida de um casal.
E o tempo que passaram juntos,
pouco importa. Agora,
são só conhecidos que se cruzaram
e saíram do normal.

Talvez se tivéssemos feito isto,
ou aquilo, ou mais,
ou menos... definitivamente mais.
Não sei! Cansei da previsibilidade.
Às vezes é boa a indecisão.
E eu decidi que quero ser indeciso
e que a sua determinação não me convém,
então dispomos assim:
você ai determinada, e eu cá,
sem resolver nada.

Nunca mais.

Não quero mais te ver nunca mais. Se você acha que pode chegar assim, do nada, e depois de me possuir durante um tempo partir, você está muito enganada. Pode parecer que fico de cama por você, que é sua culpa essas olheiras em meu rosto, mas não vá se sentindo importante: você é só mais uma que passou em minha vida, só mais uma semana. Já nem me lembro quando foi a primeira vez que tive uma que nem você - ou até mais intensa.
Nunca mais retorne, junte o que você fez de mim e se recolha. Não quero mais esse coração acelerado, essa perda de ar que me provoca, o bater de joelhos quando chega, nem os gemidos de quando estamos juntos. Por favor esqueça que me conheceu.
Já encontrei a cura para essa nossa relação: antibiótico.

Sapos

Não sabia o que fazer.

Comprei um sapo.
Dei de comer pro sapo.
Comprei brinquedo pro sapo.
Deixei o sapo na grama.
O sapo morreu.

Fui pro trabalho triste.
Tomei uma bronca.
Engoli sapo.

Conheci uma garota nova.
Acabei virando o sapo de alguém
que clama por um príncipe.

09 agosto, 2010

Tristeza Companheira

Eu sei viver com a tristeza.
Eu não sei viver com a tristeza.

Ela é uma sementinha que,
quando germina, quando cuidada,
é só mais uma árvore
no jardim tão grande que há
dentro de nós.

Ela é uma erva daninha
que se alastra e se alimenta
de tudo aquilo que vê,
de tudo aquilo em que encosta
dentro de mim.

A tristeza é só uma face
de um dado que jogo,
e às vezes robo,
e que com sorte, talvez
demore bastante a aparecer.
Mas, com paciência,
ela chega.
E, com paciência,
ela vai.

A tristeza é um campo,
não traz escolha, não vem com mapa,
não tem horizonte e acaba
com as perspectivas.
A gente entra, procurando
um fim e, enfim,
se perde no caminho.

A tristeza em mim não habita
por mais de um segundo, um instante.
Mas por vezes participa,
solene, como se me respeitasse,
e vai tomando espaço e tirando uma cadeira.
E se pergunto quanto tempo dessa vez,
responde, entre dentes, aflita
que não me quer deixar.

A tristeza, quando chega,
me divide em dois que não sabem
mas têm de viver juntos.

13 junho, 2010

Sobre Namoros


Ouve:
agora tu não podes mais me deixar.

Porque é só pelo teu corpo
que conheço a medida do meu;

e sem teus olhos, sem teu rosto,
meu próprio espelho se perdeu.

Ouve:
teu lugar não é mais a meu lado.

Porque agora
tu já estás em mim.

E não podes me trair.

Afinal, como seria
ser quem sou (e viver comigo)

se de mim mesmo estivesse separado?
se de mim mesmo fosse temido ou odiado?

Ouve:
eu te amo.

E porque te amo
mais do que alguém imaginaria,

desaprendi todos os meus limites,
e hoje sou pessoa além do que merecia.

(Filipe Couto)



Não tenho costume de postar de outras pessoas, mas a data estimulou, bem como o poema sobre o tema que este professor e poeta sensacional escreveu.
Quem quiser ler outros (bons) poemas dele: http://asoutraspalavras.blogspot.com

24 março, 2010

Biografia

Era eu.
Careca, sem dente, nu,
desprotegido, recém-chegado,
só meu corpo era meu.

Éramos dois, antes mesmo de eu chegar.
Unidos pelo sangue, pelo cordão,
pela vida
e por tudo que ainda nem tinha acontecido.

Éramos três, quatro, cinco e seis,
e a cada passar de ano, éramos mais outra vez.
Éramos tantos que já não podia nem contar,
e eu com eles, e eles comigo,
meus amores, minha familia, meus amigos,
uns iam, mas a porta aberta
sempre alguem a entrar.

Éramos tantos,
que o tempo passou
(tudo mudou).
De alguns me despedi,
outros nem mais vi,
e assim o tempo seguiu
me trazendo, e furtando, os anos.

Éramos seis, cinco, quatro e tres,
na re-contagem
de trás pra frente,
de cima pra baixo,
sem mais direção
sem mais lógica
sem mais opção.

Éramos dois,
e por quanto tempo?
-Não me leve embora,
mas não me deixe só.
Éramos nós, desde o início...
Mas o cordão se quebrou,
o sangue afinou,
a vida seguiu,
e voce partiu.

Era eu.
Careca, sem dente, nu,
desprotegido, há tanto tempo aqui.
Tanta coisa pra agradecer,
tanta coisa pra se despedir,
muita coisa pra fazer.
Os olhos fechados que trazem a duvida
são os mesmos olhos fechados
que formam meu
ponto final.

20 janeiro, 2010

O Dancing dos Íntimos

Eu já sei de cor os seus gostos, seus desejos, seus sonhos e planos, seus fetiches mais íntimos que guardamos em segredo entre nós e com a cama de testemunha. Já decorei seus sorrisos de canto de boca, já sei suas reações às minhas ações, já conheço tua forma de bater a porta quando chega, de bater o pé quando briga, de bater de frente quando não gosta, de bater o ponto aqui do meu lado, toda noite, todo dia. Já sofri tuas dores, já desesperei teus medos...

E já deixei-te partir. Já cansei de tudo que já sabia e agora quero mais.



"Como amar esposa /disse ele que agora /só me amava como esposa /não como star. /Me amassou as rosas, /me queimou as fotos, /me beijou no altar. /Nunca mais romance /Nunca mais cinema. /Nunca mais drinque no dancing. /Nunca mais cheese. /Nunca uma espelunca /Uma rosa nunca /Nunca mais feliz" (A história de Lily Braun - Chico Buarque)

Às vezes, me pego pensando sobre algumas situações marcantes pelas quais passei e vivo me perguntando se faria algo diferente. Veja bem: não é que seja arrependimento, porque simplesmente acho que, hoje, como sou, veio também dessas situações, ainda que tenham sido ruins e delas tenha extraído alguma importante lição. Mas é que queria viver um pouco como Benjamin Button, e com 20 anos viver 60, e com 60 viver 20. Será que as atitudes seriam as mesmas?

24 dezembro, 2009

Feliz Natal, Feliz

Ao céu, longe, caía uma estrela indicando um lugar. À terra, perto, passavam três senhores que traziam em largas mãos presentes especiais, únicos. Não demoraram a achar a pequena manjedoura que abrigava uma família naquela noite. A magia que envolve essa história torna-se pequena diante do que de fato podemos perceber.
Crendo ou não na divindade de Jesus, crendo ou não em milagres, santos, ou dogmas religiosos de qualquer natureza, Cristo reviveu, naquela época, sentimentos de perseverança, de transformação, de fé.
E, hoje, Natal, comemoração destes tantos anos que se passaram desde aquela noite, a proposta é continuar o que Ele dizia. Mesmo que a vida esteja difícil, devemos continuar; mesmo que nos sintamos sozinhos, certamente alguém estará conosco; mesmo que tudo esteja em desalinho, mesmo que não saibamos como proceder, mesmo que tudo dê certo... a resposta está sempre no amor, por nós mesmos e pelos outros. A recompensa não falta jamais.
A proposta é que olhemos para dentro e nos transformemos. Seja nas pequenas coisas, ou ainda radicais, tudo que pudermos transformar nas relações com as pessoas para que elas melhorem, devemos. Devemos ser mais pacientes, devemos ser mais atentos, devemos ser mais amigáveis, devemos ser mais.


"You know I'm a dreamer /but my heart's of gold, /I had to run away high /so I wouldn't come home low. /Just when the things went right /it doesn't mean they were always wrong. /Just take this song and you'll never feel left all alone. /'Take me to your heart/ feel me in your bones /Just one more night /and I'm coming on this /long and winding road.' /'I'm on my way: Home, sweet home'" (Home Sweet Home - Carrie Underwood)

Velhos hábitos

Deixei de lado as preocupações
joguei fora as faturas
não me permito mais aborrecimentos
ainda que sejam de assuntos interessantes.

Parei de pensar demais
e perder tempo e oportunidades.
Parei de analisar
e resolvi perder o prumo de vez em quando.
Me livrei das bússolas, das verdades absolutas,
dos preconceitos, das meticulosidades.

Tempo, tempo, tempo,
parcimônia e paciência,
exagero e ansiedade,
misture tudo e me traga
de presente
duas surpresas de verdade:
uma do passado que não larga;
uma do que ainda hoje é potente...
Vem! E traz pra mim um futuro de felicidade.


"Peço-te o prazer legítimo /e o movimento preciso /quando o tempo for propício" (Oração ao Tempo - Caetano Veloso)

25 novembro, 2009

Na espera, a melodia

Era um menino doce e presepeiro quando eu o conheci há 30 anos atrás. Filho de um sanfoneiro aqui da cidade de Patos de Minas, naquela época nem luz elétrica nós tínhamos. Morávamos numa casa geminada da família deles: eu, pai e mãe; ele, pai, mãe e seis irmãos.
Mas era ele quem corria sempre até o quintal para pedir ao sanfoneiro que o levasse junto em suas viagens. Ele poderia ajudar, queria ajudar, queria ver mais do talento do pai. E cada semana que se passava, cada semana ele contava, a cuidar da casa como se fosse o senhor dali. E, na hora do retorno, sempre estava no portão a esperar pela música que ia surgindo do final da rua, versos entoando a antiga canção "tu me ensinas a fazer renda, que eu te ensino a namorar".
No início, a viagem levava uma semana. Depois, duas, um mês. As pessoas pararam de contar quando se passou um ano e não se teve mais notícias da melodia. O menino, contudo, acreditava firmemente que o pai voltaria: 365 dias se passaram, 365 dias estava ele a esperar.
O tempo é por demais longo para os que esperam. O irmão pegou tuberculose, a mãe definhou, a irmã fugiu de casa, um deles se afogou, os mais novos precisavam, os mais velhos trabalhavam, não tinha mais solução, e assim acabou-se a espera no portão. Quem se fazia senhor dali na ausência do pai, cresceu 10 anos em um. E foi vendo a vida passar enquanto batalhava para sobreviver.
Hoje, se foram 30 anos. Lembro-me ainda da casa conjugada e da história dele. Me mudei mais pro fim da rua, ele mora no mesmo lugar: a irmã que sobrou, esposa, quatro filhos e uma sanfona jogada de lado, junto das memórias que ele não se permite lembrar.
Todo dia, sai de casa, trabalha e passa no boteco de seu João: põe uma ficha na antiga viola que toca uma música familiar; duas cachaças que fazem amargar a garganta... na verdade, as pessoas se perguntam o que é mais amargo na história: a cachaça, ou o menino dos sonhos e amor despedaçado.


"Desde que te foste, desde que partiste, /tu me destruiste em todo o meu vigor: /já não sou mais nada, sou uma folha morta, /nada me conforta, nada me compraz. /Quando foste embora do meu doce abrigo, /também foi contigo toda a minha paz." (Triste Abandono - Irmãs Galvão)

Peças

Enquanto a água corria toda a extensão de minha pele, eu me pegava olhando o perfeito mosaico que os azulejos brancos do banheiro formavam. Era uma sensação esquisita perceber algo que sempre estivera ali, mas você nunca prestara real atenção. Aos olhos de uma pessoa desavisada, desatenta, aqueles azulejos não tinham sequer uma mínima importância. Aos meus, contudo, aquilo dizia muito.
Não me lembrava dos últimos dias. Seria efeito da bebida, ou de uma memória seletiva, eu não sei, mas o fato era que não restava uma imagem em minha mente dos dois últimos dias. E como havia chegado ali, naquele banheiro tantas vezes presenciado, mas não percebido, eu também não sabia. A única informação da qual tinha certeza: era eu quem estava ali. Conhecia minhas mãos, meus pés, meu corpo, tudo. De forma alguma era uma pessoa desconhecida. Cada defeito que em mim é traço essencial estava ali presente naquele momento de total desconforto.
Os azulejos, contudo, formavam figuras familiares nas minúcias. As linhas retas, a cor do vazio que ali me rodeava, o cimento que os unia. É esquisito, pensei, lembrar-se apenas dos azulejos. Aqueles passavam na minha vista a cada cair da água por cima dos meus olhos. Em cada piscada, uma nova figura, uma nova forma, uma lembrança nova, o mesmo eu e os mesmos defeitos. Nu, em branco, em azulejo, em mosaico, me encontrei num caso clássico de doppelganger, um duplo.
Entrei ali um, e por um simples abandono das situações que tinha vivido há pouco, saía outro, as novas informações construídas uma a uma, ao lado da outra, num mosaico que para mim fazia sentido. Saí outro, deixando para trás, sobre o branco dos azulejos, o meu vermelho antigo das veias.

10 novembro, 2009

As palavras saem arrastadas, o pensamento não consegue focar, as coisas não parecem certas na cabeça. Mas, no coração, não sei o que deu. É tanta felicidade, tanto sentimento que brota, sai escorrendo de cada poro que Deus pôs no meu corpo.
E, de toda uma preparação, da sementinha, dos meses, de tudo que mais importa, ela chegou. Um pouquinho mais cedo, um pouquinho mais magra, mas já chegou me trazendo isso tudo que não cabe em mim.
Esse amor, que não era amor, e, inexplicavelmente, já é amor, me lembra todas as coisas arrebatedoras que já tive na vida. E se delas, inúmeras foram sensacionais e inesquecíveis, é fácil de pensar que essa minha irmãzinha vai seguir na mesma linha.

Para Cecília, com meu carinho, e palavras de minha amiga paulista:
E que ao arrebentar-te os dias, após a calma dos meses na barriga, você seja plena nas paixões, nas dores, nos suores e na incrível arte de se manter de pé, sejam quais forem as marés de sua praia. Que tua terra seja germinada por bons afetos, que teu corpo só obedeça teus limites, que tua ânsia seja sem delongas, que tua convicção seja soberana. E tuas horas caminhem amplas, leves e graves: antagônicas, princípio e fim de uma alma livre.

Faça da solidão sua amiga e ame até dar dor no peito.
Visite teus infernos.
Trave relações imperfeitas.
Perca o prumo.
Odeie algumas vezes.
Até vislumbre desgraça, mas só enxergue poesia.

07 novembro, 2009

Construção

Às vezes, quando a gente passa tempo demais pensando, seja em qualquer assunto, nos perdemos em diversas memórias que, de vez em quando, nem nos pertencem. Relembramos momentos, risadas, tristezas e até histórias que outras pessoas nos contaram e acabamos revivendo como se tivéssemos sido nós mesmos a passar por elas da primeira vez.
Hoje, de fato, pensei muito. Sem uma pauta fixa, pré determinada, minha cabeça ficou à mercê de músicas, fotos, programas televisivos e blogs. A viagem, então, se fez. Por águas profundas do distante passado, por filetes de água de um futuro que ainda está se formando. Ainda há tão pouco com o que se pudesse fazer algum tipo de previsão - mesmo que eu mesmo nem saiba se gostaria de prever algo ou preferiria a surpresa.
A profundidade do passado, porém, me assusta. Não são simplesmente lembranças soltas que trago em minha bagagem por essa vida. Nesse intervalo, consigo vislumbrar um apanhado de situações, perdidas em épocas diferentes de minha existência, que formam um todo, num paradoxo sem fim de dissociação e indivisibilidade: enquanto juntas, sou eu; separadas têm um significado único e ainda mais especial, mas que nunca definiriam a complexidade de alguém.
E, nessas lembranças, como num sonho, havia dois de mim: um da época, ali vivendo (e aprendendo) cada experiência e o eu de agora, que a elas assistia, parcialmente julgando. Veja bem: não sou um escritor, quem dirá um prosador ou poeta saudosista.
Na realidade, não sei nem se é com saudade que penso nesses tempos. Acho que saudade é devastador demais para ser isso que sinto agora. Em contrapartida, não acho as palavras ideais para definir. Sendo simplório, é uma forma de agradecimento. Às pessoas, boas e ruins, com quem convivi, e situações por que passei. Elas construiram, pedaço a pedaço o meu presente.
Hoje, se tenho planos, se tenho idéia do que desejo ou não para minha vida, é devido às minhas experiências passadas. E eu anseio para que, daqui a algum tempo, eu possa olhar para o passado e ver, mais uma vez como juiz, o meu eu de hoje, acertando e errando e construindo, paulatinamente, uma trajetória, no mínimo, interessante.


"Então tentar prever /serviu pra eu me enganar /(...) Numa moldura clara e simples /sou aquilo que se vê" (Retrato pra Iaiá - Los Hermanos)
"E se eu fosse o primeiro a voltar /pra mudar o que eu fiz, /Quem então agora eu seria? (...)/E se eu for o primeiro? /A prever e poder desistir /do que for dar errado (...)/Dispenso a previsão /Ahhh, se o que eu sou /é também o que eu escolhi ser /aceito a condição" (O Velho e o Moço - Los Hermanos)

23 outubro, 2009

E Deus apontou-lhe o dedo e disse:
- Parcimônia, meu filho... Parcimônia!
Infelizmente, não ouviu e continuou assim, mergulhando exageradamente em cada coisa que a vida lhe oferecia.

01 outubro, 2009

Sobre o Tempo que passou

Ontem, eu senti saudades de ti.
Havia muito que não nos falávamos e eu guardava em mim as lembranças mais interessantes que deixaste, cá comigo, do que fizeste, cá comigo, no tempo em que tu ainda vivias cá comigo.
Eram lembranças de um tempo e convivência profundos, mas que a mim chegavam em momentos rasos. Não havia me permitido pensar dessa forma, distante, outrora, passado.
Sigo pensando em nossos momentos, se neles havia algo de convencional. Lembrei-me de tudo, da festa, do escorregão, do blog, da discussão, da bebida, da conversa, do carro de bombeiros, da praia, do mar, da lua que nos olhava com inveja e de ti, uma simples camponesa. Lembrei-me das manhãs, das tardes, das risadas, das músicas, das vezes em que quase tomei um tiro por um pagode indevido.
Eram tantas as semelhanças e tantas as diferenças que sou incapaz de listar todas. Não consigo imaginar do que somos, eu e tu, o samba, a vida, feitos. E apesar de eu levar a vida devagar pra não faltar amor, sem ti, sou menos que pá furada. A vida tá mesmo, muito devagar.
Perdi-me nesse tempo todo longe. Perdi a mim, meu eu-lírico que a ti jurara sempre possuir. Não sei nem o que falaria se hoje me encontrasse, mas sinto falta.
De mim, do meu eu-lírico... mas, principalmente, mais falta ainda de poder ir prai, te ver, e te dizer pra deixar ser como será. Nem eu mais sei como será. E, a partir disso, só posso esperar, ansioso, por novos momentos. E que tu voltes, chegues sem avisar, e me tomes, assim, de rompante, com o costumeiro ar mineiro misturado com paulista, fantasiado de carioca, com quem eu havia muito não falava, mas há pouco continuava amando.



"Depois de ter vivido o óbvio utópico /te beijar /e de ter sobre a sinceridade e dizer /quase tudo quanto fosse natural /eu fui praí te ver, /te dizer: /deixa ser, como será quando a gente se encontrar?/ no pé, um céu de um parque a nos testemunhar. /Deixa ser, como será. /Eu vou sem me preocupar /e crer pra ver o quanto eu posso adivinhar." (Retrato pra Iaiá - Los Hermanos)

26 setembro, 2009

Dos dois amores

Você era segurança enquanto ela era novidade;
você se tornou certeza e ela já não era mais a mesma.
Se em você eu pensava a todo momento, na verdade,
nela eu pensava com mais ainda intensidade.

Perdi a noção do tempo que se passou,
um ano ou dois, agora ou depois,
o aqui e o acolá, hoje, o que restou?

Não adianta negar.
mentir não vai resolver -
embora eu tente -
o espelho encara aquele que mente,
e, ainda está, no fundo do meu ser,
a mesma verdade a me encarar.

Era única vez que se transformou em todas,
e a cada pensamento, dois, ou três,
aquela mesma idéia a mim voltava,
torcendo a ser uma única de vocês
aquela que eu amava.

Hoje, a Maria é Cecília
e nome já não tem o sentimento.
Toda você e a outra, minha e minha,
esvaíram-se e tornaram-se,
num único momento,
passado, presente e futuro

encravado, simplesmente,
no mais pesar e recente,
a verdadeira noção do pra sempre.



"Tire esse azedume do meu peito /e com respeito à minha dor /se hoje sem você eu sofro tanto /tens no meu pranto a certeza de um amor" (Azedume - Los Hermanos)

22 setembro, 2009

Barulho de Tempero


Enquanto o teclado faz um barulho sob meus dedos, a panela de pressão vai jogando uma fumaça cheirando a feijão no cômodo próximo. E nessa mistura de sons e cheiros, minha memória vai devaneando pelo passado e pego-me lembrando de minha avó.
Ela, em pé, perto do fogão, corta alguns ingredientes e mistura. concentrada, enquanto cantarola uma antiga canção portuguesa. Eu, já com 1 ano, estou sentado ao chão brincando com um carrinho, porém distante... O barulho da música junto da comida no fundo da panela me chamam a atenção.
De repente, estou com 4 anos. A bicicleta ficou jogada no play enquanto subi correndo as escadas e cheguei para o almoço. Dessa vez, a faca vai cortando a cebola e o tomate rapidamente sobre a tábua fazendo um alto som a todo corte. Kátia fazia sempre esse empadão que até hoje consigo ver em minha mente.
As visões vão se misturando e não sei se agora tenho 11 ou 4 anos. Vejo um pé tamanho 40, mas a bicicleta de rodinhas ainda está parada na porta. O almoço está pronto e o som que me atenta dessa vez é minha mãe chamando a todos para sentarem-se à mesa. Primeiro almoço de família na casa nova.
A panela de pressão continua a soltar a fumaça, fazendo um barulho característico, enquanto digito no computador e as memórias vêm a meu pensamento. O primeiro beijo, amor, almoço, reunião, trabalho... todos têm um sabor e um som específico de preparo, na receita certa com cada medida e pitadas exatas. Os sabores, igualmente, são únicos de cada experiência e, até hoje, me lembro de todos os barulhos e temperos de cada uma das memórias que tenho em minha vida.




29 agosto, 2009

Amizades e Leviandades

Hoje, me incorreu uma série de pensamentos... Não sei se é culpa da quantidade de sol na cabeça, da cerveja ou do tédio, mas os pensamentos vieram e, de mim, não sairam.
Como uma espécie de retrospectiva, vários rostos foram vindo à minha memória como aqueles que um dia ocuparam vagas dentre as minhas pessoas favoritas e mais importantes, além minha família: meus amigos.
Amizade, conforme diria meu amigo Aurélio, é a afeição recíproca entre dois entes ou simplesmente "boas relações". Aurélio é um de meus amigos de conhecimento mais notório, mas, dessa vez, não posso concordar com ele.
Amizade é afeição, sim, mas é raiva exacerbada nos momentos ruins. É paciência nas expectativas e problemas, enquanto é urgência na saudade e na vontade de estar perto... É intensidade em compartilhar e calmaria em aguentar, segurança em conversar, sapiência na mesa do bar, é música cantada na bebedeira, é perder a estribeira com alguém, não encontrar eira nem beira, é companhia...
Amizade não tem intervalos fechados, sempre tem mais de onde surgir.

Há alguns anos, eu tinha alguns amigos. Hoje, tanta coisa mudou... Alguns permanecem, outros perdi o contato. Que pena! Gostaria de reencontrá-los para ver como andam; alguns, porém, podem continuar com o contato perdido, por favor.
E foi isso que me intrigou: esses eram os meus amigos de verdade, ou era mais uma das leviandades da vida, hoje em dia tão assombrosa? São esses frutos da mania de dizer "eu te amo" que parece dominar parte das pessoas?
Na verdade, não procuro uma resposta... Na verdade, não acho que haja uma resposta... Na verdade, refletir sobre a tal veracidade, já é a resposta!
Dessa vez tenho de discordar do Aurélio, como disse, e pior: concordar com a crença popular: para um bom entendedor, meia palavra (ou pensamento) basta.


"Tudo que vai /Deixa o gosto, deixa as fotos... /Quanto tempo faz?! /Deixa os dedos, deixa a memória /Eu nem me lembro mais. /Fica o gosto, ficam as fotos, /Quanto tempo faz... /Ficam os dedos, fica a memória /Eu nem me lembro mais" (Tudo que Vai - Capital Inicial)

24 julho, 2009

Paradoxo do caso Sereno

Outro dia, acordei no meio da madrugada. Olhei pro lado e ela estava a dormir, serena, com a cabeça envolta por aquele travesseiro macio que minha mãe comprara para mim meses atrás. Havíamos levado esse travesseiro para a viagem. Ela disse que nunca mais dormiria sem aquele travesseiro desde o momento que havia encostado nele, e era verdade. Eu escutava as ondas quebrarem longe, imaginava os peixes dentro dela naquele eterno vai-e-vem da maré.
Não sabia dizer o que havia me despertado abruptamente. Não estava incomodado, nem nada. Apenas acordei, assim, do nada. E olhei pro lado, enquanto ela dormia na cama serena. Encostei meus lábios na testa dela e senti ela se acomodar mais pra perto de mim, procurando meu corpo. Tantas vezes já tínhamos passado por isso. Levantei-me suavemente para que ela não acordasse. Andei até a janela e percebi que algo mudara naquela madrugada. Estava longe, saberia eu depois, de descobrir exatamente o que era. Mas, assim, do nada, abruptamente, alguma coisa mudou e senti vontade de sair dali para algum lugar mais distante do mundo.
Eu queria ver o mar, o sol, as pessoas, as cores, lá do outro lado do mundo, quem sabe até fora dele. Eu queria pular de pára-quedas enquanto tomava um chá com leite, como os ingleses fazem. Queria mergulhar com tubarões levando apenas um pedaço suculento de charque argentino e, ainda assim, eles seriam amáveis e gentis. Depois eu daria a carne como recompensa pra eles. As coisas andavam meio em preto e branco.
Voltei meus olhos para ela que dormia um sono brando. Peguei uma mochila e enchi com algumas coisas. Tempo igual levou para que eu escrevesse um bilhete pequeno que dizia: "Fui ver o mundo e volto. Espera" e o deixasse em cima de uma mesa de cabeceira. E saí, atravessei a rua e a rua me atravessou. Pensei no sono intranquilo que agora ela levava. Mas eu voltava. E ela me esperava.



"Freedom is a mine /you know how i feel /it's a new dawn /it's a new day /it's a new life for me.. /and I'm feeling good" (Feeling Good - Bobby Daren)
"Eu volto logo, me espera /Não brigue nunca comigo /Eu quero ver nossos filhos /(...)Leve o mundo /Que eu vou já" (ECT - Cássia Eller)

20 julho, 2009

Empinando Sonhos


Quando ele entrou em casa, pegou as cartas que haviam sido cuidadosamente empurradas por baixo da porta e seguiu para o sofá. Largou-se ali. O dia havia sido exaustivo diante de tanta papelada e burocracia no trabalho. Pensou, rapidamente, no emprego que havia arranjado. Era seu primeiro trabalho e estava progredindo, devia se orgulhar. Sempre sonhara em ter um grande emprego e ser um excelente profissional.
Entre a correspondência, contas, contas, contas. E uma carta solitária, num envelope bem dobrado e quente. Estranhou. Não recebia cartas há anos. Olhou o campo do remetente enquanto afrouxava a gravata. Era de uma amiga que há tempos não falava. Artista, ela. No momento, trabalhava também em algo sério, mas sua alma jamais deixaria de pertencer à arte. Mal sabia que a dele também.
Ela começava:
"Meu amigo, quanto tempo. Fui à praia, andei na areia e toquei o pier. De repente, pensei em você e em mim. Nossa amizade é como a areia, não é? Construída na totalidade de grão-em-grão. Muda de forma, muda o jeito, mas no fim, está sempre ali. E é por isso que ao escrever para alguém, outra pessoa não podia ser. Tive um sonho, que ainda tenho e agora sempre terei. Meu sonho, em mim como meu sangue, é morar num sótão. Pequeninho, com gavetas e prateleiras. A única coisa grande é a vontade de estar ali e a janela, um triângulo isósceles que ilumina o sótão e deixa-o grande. Só isso é grande, só isso é meu grande sonho."
A carta acabava assim, sem mais informações. Mas a relação deles sempre fora assim. Sem mais, ele entendia ela, ela entendia ele. E, diante desse entendimento maior, ele sabia que ela iria atrás do sonho. O sótão já existia, em algum lugar, e ela encontraria, nem que fosse no momento mais íntimo e reservado dela.
Talvez nunca mais se vissem. Foi o primeiro pensamento triste que lhe ocorreu. Depois, começou a pensar sobre seus sonhos. Lembrou-se, inclusive, das vontades de criança. Voar seria sua maior vontade.
Foi até a venda mais próxima e comprou uma pipa, a qual empinou do lado de fora do terreno de sua casa. Ficou olhando a pipa durante horas, ali, voando no céu. Seu sonho era ser um soltador de pipas, e só. Compraria uma casa pequenininha, com paredes próximas e teto baixo. A única coisa grande seria uma enorme pipa vermelha e preta que teria ao lado. E, todos os dias, se colocaria a soltar a pipa enquanto todos na rua olhavam maravilhados.
Da mesma forma como ele estava agora. A noite caiu, e caiu a pipa. Caiu na real, cairam os sonhos. Precisava terminar um trabalho, que durou a noite toda.
Acordou do sono rápido que tirou, acordou do sonho e acordou. Perdera aquele momento que era sua chance única de viver seu sonho. Pelo menos, era o que pensava. Ainda não havia percebido que, como a menina, a qualquer momento podia escrever para alguém contando que tinha pego sua linha e, com sua pipa embaixo do braço, saiu por ai procurando novos ventos que o fizessem voar de encontro ao seu sonho.

19 julho, 2009

O Vento vai dizer Lento o que virá

Era julho e uma brisa com cara de furacão assombrava meus preferidos grãos de areia em Ipanema. Sentado, na praia, na areia, na mesma, na vida pensava. O vento batia em meu rosto e no meu resto, mas não me incomodava. Era mais como se houvesse um visitante ali comigo.
Na verdade, havia mais que uma só pessoa. Mas a sensação que eu tinha era de que o vento era o único que me acompanhava.
Enquanto me pegava os cabelos e fazia-me um cafuné, esbaforido, eu subia nas pedras que me levariam até o outro lado. Após atravessá-las, certamente, eu encontraria as maiores felicidades que a mim estavam predestinadas. Engraçado é que eu sempre tive essa impressão de que a praia seria meu paraíso, no fim.
E enquanto eu estava ali, no meu infinito, maior paz não podia haver. Esqueci em que estava pensando. Embora nem quisesse lembrar o que era, foi a primeira vez que me senti solitário. O vento havia parado de soprar em meus ouvidos os assuntos que costumávamos conversar em silêncio e, sem isso, sem meus pensamentos, senti os pesares de ali estar sozinho. O caminho de volta pareceu distante e árduo demais para fazer sem comapanhia.
Distante do mundo, sem um sequer pensamento profundo, tirei os shorts, me joguei na água e nadei. Fui em busca da minha felicidade, dos meus sonhos que não havia ainda sonhado. Água gelada, ali ao meu redor, fazia-me companhia agora nessa nova empreitada. Avise ao mundo que estou bem e não volto, não.
E se algum dia, vento, te encontrar por ai, traga-me apenas as notícias e lembranças boas. As demais, pendura na conta de outra pessoa.



"Posso ouvir o vento passar, /assistir a onda bater, /mas o estrago que faz /a vida é curta pra ver. /(...)Como pode alguém sonhar /o que é impossível saber /não te dizer o que eu penso /já é pensar em dizer. /E isso eu vi: /o vento leva! Não sei, /mas sinto que é como sonhar, /que o esforço pra lembrar /é a vontade de esquecer." (O vento - Los Hermanos)

Construção por Remendos

Me sentia como um belo boneco, ligado às mãos de alguém que me controlava por meio de fios invisíveis. Qualquer movimento, tão inesperado e abrupto, por outra pessoa era pensado. Não foste aquele momento em que um dos elos se soltou e um braço ficou à deriva, talvez ainda estivesse preso àquela situação.
A partir daquele momento, libertador momento, pude sentir o que estava acontecendo. Passei a mão em meu peito e percebi que ali houvera um rasgo. Como posso não lembrar, se em mim mesmo se encontrava aquela remenda? E aquela pessoa que controlava meus movimentos era, certamente, quem havia costurado pedaço por pedaço de mim.
Devo sentir tristeza, raiva ou saudade? Na verdade, sinto gratidão. Foi com ela, ao me controlar, que aprendi a andar, sentar, correr, pular, mexer, sorrir, chorar e amar.
Cada costura minha, cada fragmento ou pedaço tinha a mesma inicial, como se fosse para, ainda hoje, eu não esquecer do primeiro passo, corrida, pulo, sorriso, choro e amor!

01 julho, 2009

Sentido Real da Demagogia

Lendo algumas coisas que me fizeram pensar, acabei me deparando com um problema que, até então, não havia me chamado a atenção. Falo da existência dos radicais políticos. Trato como problema por ser algo que me incomoda, mas se você gosta de alguém defendendo o capitalismo desenfreado ou o socialismo exacerbado, fique à vontade para parar de ler agora.
E, talvez, parar de ter expectativas.
Lendo algumas coisas que me fizeram pensar, um dos tais radicais defendia a não-demagogia, a não-interferência social na votação, a não-alienação da população. Bem, acredito eu, caro senhor, que isso não seja possível. Numa sociedade ideal, quem sabe, mas aqui, Brasil, bonito por natureza e corrupto por esperteza, é simplesmente incabível. Arrisco dizer que na maior parte do planeta a realidade é a mesma: cada um se preocupa com o seu e vota no que lhe é mais conveniente. Atento para que não estou defendendo esse tipo de atitude, é apenas uma constatação.
Lendo algumas coisas que me fizeram pensar, percebi o uso da palavra demagogia em demasia. Todo político que faz obra para a população carente está a praticá-la; as cotas nas universidades públicas, as visitas às comunidades pobres. É fato que há uma fórmula a ser seguida, sim, para ganhar uma eleição e conquistar a empatia da população. Mas querer cruxificar todos as pessoas que agem dessa forma, é por demais estúpido dos tão esclarecidos filósofos políticos. Demagogia, como foi previsto há séculos atrás por Aristóteles, no sentido da degeneração da Democracia, não está nesse assistencialismo que, perdão, mas tem de existir numa realidade segregacionista como a nossa. Demagogia está na corrupção do governo da maioria. Que tal nos preocuparmos com o roubo do patrimônio público, com o nepotismo, com a justa remuneração e, consequentemente, cobrança, sobre os políticos da alta câmara (Sarney, quem?!). Ah, senhores, isso ai dá pano pra manga.
Lendo algumas coisas que me fizeram pensar, percebi que política é, mesmo, como futebol. Não tem como discutir. As verdades não são verdades; os sábios não são sábios. O que todos querem é a busca por um Estado de Direito real, com o mínimo para se viver assegurado e a menor distância nas camadas sociais. Quer dizer, todos querem? Ah, senhores, isso ai dá pano pra manga.
(In)Felizmente, não tenho interesse nesse tipo de costura.



"Dormia a nossa pátria mãe tão distraída /sem perceber que era subtraída /em tenebrosas transações (...) /numa ofegante epidemia /que se chamava carnaval" (Vai passar - Chico Buarque)

12 junho, 2009

Just Like This

Sometimes it’s just in this same reality. No time to change, no reason to change, no change at all. And while everything seems to be so outta place, you realize that you may be in a different place, and all the rest around you is as it should be.
How come it seems wrong? Why this feeling rests in you?
Use your old recipe, says that tiny voice: chocolate, milk and vodka. That may make your thoughts get better so as to solve all your problems.
Instead of it… Doesn’t matter. Everything just seem outta place, just like this, just like it is.


"But it's nothing new/ I loved you with a fire red/ Now it's turning blue, and you say./ Sorry like an angel,/ heaven let me think was you" (Apologize -Timbaland)

19 maio, 2009

Das Exatas Lições que Aprendi

Tangencio a ignorânica, percebo que não há mais solução. Essa sede do saber vai secando, as forças se exaurindo. Estou no meu limite, isso sim. E, ao mesmo tempo, tento transpô-lo, desprezando a existência dos limites infinitos, mesmo para aquilo que está apenas denominado.
O que fazer quando tudo vai se aproximando, da direita e da esquerda, e, simplesmente, não sabe qual a solução? Apesar de não saber a resposta, a gente continua, a gente é sempre contínua.
Chegou a hora de fechar os olhos, e apenas pedir por uma nova função amanhã. Mais simples, mais clara, que não nos faça ficar assim, a derivar neste tão monstruoso mar. Calculo ser, esta, a melhor decisão que tomei.

11 maio, 2009

Mundo à Parte

Passamos o dia na cama.
Dia que nasceu já no entardecer para nós. Levantamos apenas pra comer alguma coisa rápida e escovar os dentes.
O banho foi o que levou mais tempo, mesmo assim a cama não esfriou.
Passamos o dia juntos. Me espantei com a quantidade de sentimentos que ela conseguia passar com o olhar. Virava-me e enternecida estava; no outro momento, olhos travessos, mansos, sonados, atentos, me consumiam. O cabelo que descia sobre seus ombros prendeu minha atenção durante alguns instantes enquanto estava ao pé da cama pegando algo no chão. E ao engatinhar de volta aos meus braços, perdi a concentração e o controle.
Passamos o dia assim. Eu e ela, ela e eu. O mundo, que lá fora girava, pouco nos importava. Crise, guerra, tristeza e problemas eram proibidos à nossa realidade.
Aquilo sim era a chamada felicidade. A paz se fazia e pra que me importava algo mais?
Simplesmente, porque passamos o dia na cama.



"Sunday morning rain is falling/ Steal some covers, share some skin/ clouds are shrouding us in moments unforgettable/ you twist to fit the mold that I am in/ (...)That may be all I need/ In darkness, she is all I see/ Come and rest your bones with me/ Driving slow on sunday morning/ And I never want to leave" (Sunday Morning - Maroon Five)

02 maio, 2009

Era uma vez um fim

Era uma vez ela e ele, ele e ela. E outra vez, e mais uma, e tantas outras vezes.

Era uma vez um fim, outro fim, e mais outros fins. Fim - Qual fim?

Ele se pergunta isso enquanto ela penteia e se prepara para um almoço sem nutrientes.

E ele, enquanto vos escreve isso, pecebe que não há fim para o que faz, não há princípios nesse jogo, não há meios para atingir o que deseja, não há mais... Mas, ainda assim, escreve, apaga, reescreve, e pensa. A caneta tangenciando o papel como a mão tangencia o rosto, dispersando o que foi molhado algum tempo atrás. Traz a paz de volta, traz a serenidade conhecida, acaba com isso.

E, ao terminar, acabou.


"E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais /que o mundo compreendeu /e o dia amanheceu /em paz" (Valsinha - Chico Buarque)

01 maio, 2009

Indefinidamente pra sempre

Lembrei-me de quando, naquele momento, naquele rápido instante que durou uma vida inteira, sussurei ao seu ouvido: somos um; eu, teu, tu, minha!
E essa conjugação das pessoas variadas em pronomes me proporcionou uma viagem muito além do que o pensamento sobre a lingua portuguesa poderia. Eu não as havia dito apenas por dizer, num calor do momento. E como estava quente!
Das pontas de meus dedos, ao inanimato do meu último fio de cabelo, este entre os teus dedos, tudo estava em um calor anormal, que me subia e deixava-me tonto. Abafadamente apaixonado, como você me chamou.
Eu não tinha em minha mente que ficaríamos juntos para sempre. Apenas que cresceríamos: juntos, um a um semeando no outro aquilo tão desejado durante esse tempo no qual ainda não havíamos nos encontrado. Hoje, não importa se estamos ou não juntos.
Lembrei-me de quando, abaixo de outros braços, abracei-te e senti a união de duas pessoas, dois corpos, duas almas como nada antes eu podia ter imaginado. Mais uma vez, naquele pequeno enorme momento, beijei teus lábios com uma urgência como se necessitasse disso para continuar a viver.
Você pôs seus braços em volta à minha cintura, como era de costume, recostou a cabeça em meu peito, como era de costume, e falou que me queria com você naquela noite, naquela semana, daquele instante para sempre - isso não era de costume.
Ali, percebi nossa conexão sem fim. De tudo mais, o resto era fenecente diante nossa realidade.
O infinito daqueles momentos só acompanha o infinito das minhas felicidades em reviver essas lembranças cá, lembrando-me de quando tudo isso era presente. Lembrei-me disso, daquilo, de tudo, de você.
E, indefinidamente, no meu pra sempre, será assim.


"You'll always be a part of me/ I'm part of you indefinitely/ girl, don't you know you can't escape me/ oh darling, cause you'll always be my baby" (Always be my baby - David Cook)

28 abril, 2009

Coisas que Tenho a Dizer

A Alguém. E que esse Alguém, sabendo ou não quem é, sinta-se como gostaria que sentisse.
Perco meu tom alarmante, denunciante, irônico ou erudito para simplesmente trazer a simplicidade a essas mais simples - portanto, verdadeiras - palavras: Sinto saudades. E de todas as vezes que escrevi sobre isso, dessa vez tá tão complicado.
Esse relato poderia ser para tantas pessoas, que já nem sei mais se sinto saudades delas ou de mim mesmo.
Mas, não! É para Alguém.
Temos uma fácil convivência, um papo fluido do estilo leve de se conversar (como todos deveriam ter). Temos umas histórias, uma viagem - ou várias?! - uns aforismos e umas risadas que não encontro similares por mais que procure... e como procuro!
Mas chega de falar de nós. Você, Alguém, sabe disso tudo. Eu entendo que o ano esteja difícil para você, mas será que a cobrança é tão complexa quanto é complexo para mim ficar sem a sua companhia?
De todas as formas, sinto saudades. E queria que soubesse desde o princípio, apesar de conhecer minha mafiosidade tão bem que já sabia antes mesmo de eu querer falar.
Estou aqui, ali, acolá, ou em qualquer lugar, para você sob qualquer situação.
Filosoficamente, finalmente, vamos acelerar esse tempo que "a sapucaí é grande e o tempo ruge"!

26 abril, 2009

Os Estratégicos 90 minutos

Domingo é dia sagrado.
Literalmente e por tudo que ele me proporciona. Além do famoso almoço de domingo, é dia de Maracanã. E não há como mensurar o que é o Maracanã para mim.
O Ministério da Saúde adverte: se você não gosta de futebol e considera irracional quem gosta, pare por aqui!
Se continuou, como eu, gosta. Entende que a paixão nacional, de fato, pode ter algum sentido. Não daqueles que possamos explicar numa aula ou com qualquer teorema. Sentido ligado mais à raiz da palavra, relacionado a sentimento. São 90 minutos de pura adrenalina, de vozes em coro, de palavrões jogados ao vento, de amigos e inimigos efêmeros, de humanidade e paixão.
Humanidade, pois o Maracanã presencia de tudo, todas as possíveis relações humanas: tem amor do casal de namorados, amizade no abraço de comemoração, repulsa, ódio, tudo! Ali, no Maracanã, mostram-se as verdadeiras características de cada um de nós em sua mais real natureza.
Sobre a paixão, apaixonadamente, falo. É simples percebê-la; árdua é a tarefa de entender. Gastar dinheiro, perder a voz, aborrecer-se por vezes... só acontece em dois lugares: Maracanã e fila de INSS. E ninguém enfrenta isso se não for por paixão a algo, pode ter certeza. E por que essa paixão?
Isso, de fato, não sei responder.
Mas é uma alegria que sobe ao pisar naquele chão, uma ansiedade boa... e durante aquele tempo, os problemas são automaticamente extintos, não importa nada mais.
E dessa imensidão, literalmente, que é o Maracanã, vêm sempre bons frutos, ainda que percamos o jogo: os estratégicos 90 minutos de felicidade que preciso no meu sagrado Domingo.


"Domingo, eu vou ao Maracanã./ Vou torcer pro time que sou fã./ Vou levar foguetes e bandeiras/ não vai ser de brincadeira/ ele vai ser campeão." (Domingo eu vou ao Maracanã - Neguinho da Beija Flor)

16 abril, 2009

Poema Desuniformente Variado

Pára! Pensa e vê. Na verdade, não pára mais: quem tá do seu lado quem te quer bem quem te faz bem em quem você pensa o que você quer quantas pessoas ama quantas pessoas te amam você dá valor correto às pessoas o quanto do seu tempo dedica aos amigos cuida das suas amizades liga escreve corre atrás sente falta explicita sua felicidade tem alguém por quem parar: e pensar?

09 abril, 2009

Ao desapego

Vem.
Que o mais importante já passou. Agora, só restam as lembranças de um passado remoto ou não, as memórias, fotografias, pensamentos.
Vem.
Não há mais o que vivermos juntos. Da fonte que bebíamos, nada restou. Sobrou pedra de que água não mais é vertida. Sobrou pouco. Sobrou nada.
Vem.
Não quero mais pensar nisso. Tu não és minha, não foste minha, não serás minha. Não há pertences nesse nosso jogo. Fomos almas juntas desfrutando de uns prazeres e algo mais.
Vá.
Abre tuas asas, corre pelas montanhas e plana em direção do mais caloroso sol sobre as colinas e planices de toda a felicidade que possa existir nesse mundo.
Vá.
Mas apenas vá. Tu, aqui, me prendes; tu, aqui, és lembrança, és remorso, és ruim para mim, sou ruim para ti.
Vá.
Antes que o tempo passe e a gente se arrependa do que ainda nem cometeu. Junta tuas coisas, coloca numa mala as metonímias e parte.

E ao desapego, um brinde.



"Eu sei: /jogos de amor são pra se jogar. /Ah, por favor, não vem me explicar /o que eu não sei /e o que eu já sei" (Me Liga - Paralamas do Sucesso)

31 março, 2009

(O que não é) Soneto do Desapontamento

Eu aponto enquanto tu apontas.
Se me desaponta, a ponta vira o fim.
E disso, chega o não-amor.
Pois se amor é fogo que arde sem se ver,
desapontamento é incêndio, queimada, destruição
no qual só se vê o resultado:
este não deixa fumaça como o outro;
deixa água - lágrima sorvida por entre as expectativas.
Acostume-se a querer menos de quem você quer,
ou então brinque de mal-me-quer
e peça a Deus para o desamor não chegar.
.
Ou não!
Pegue sua tristeza,
recolha os cacos
que, entre casos e acasos,
a gente vive com surpresas e esperanças.
Depois, misture uns ovos,
ouça uns passarinhos,
faça um bolo
faça um pão
faça amor
faça briga
faça loucuras...
E lembre-se: entre tanto desamor,
desapontamento e rancor,
ainda prefiro o fogo que arde sem se ver,
mesmo que seja preciso se arriscar.
.
.
.
"Eu possa me dizer do amor (que tive): /Que não seja imortal, posto que é chama /Mas que seja infinito enquanto dure" (Soneto da Fidelidade - Vinícius de Moraes)

30 março, 2009

Ao passo em que se passa a posse

Tu, enquanto minha, jamais poderias me deixar.

Se tudo que te define é essa qualidade, e o que sou nada passa de teu dono - tal qual de tua posse.
Se as marcas do teu corpo têm as formas de minhas mãos; se teus traçados particulares se fizeram com a intensidade, maior ou menor, dos meus toques: mais suaves no rosto, menos no corpo.

Lembro-me hoje da tarde em que aconteceu. Pousei minhas mãos em teu pescoço e fui descendo-as vagarosamente pelo teu corpo, pelo colo, seios, dorso e costas, e parei-as em tuas coxas. Minha prima-obra perfeitamente perfeita estava completa.

Lembro-me, ainda, hoje, da noite em que aconteceu. Teus olhos nos meus braços em teu contorno teu rosto até ficar arrepiado. Perdi a respiração na tua e meus batimentos se confundiram com os teus, tão altos no contato de nossos corpos. Ali, naquele momento, fizeste-te minha; fizeste-me teu.

E tu, enquanto minha, jamais poderias me deixar.



"E hoje eu sei: /sem você sou pá furada. /Ai! Não me deixe aqui, /o sereno dói, /eu sei - me perdi, /mas eu só me acho em ti." (Los Hermanos - Paquetá)

29 março, 2009

Claridade em dia de Tempestade

Em minha cabeça, mil raios e trovões.
Que caiam sobre esse calor infernal ou em cima de alguém em especial, não importa. Mil raios e trovões.
Se antes não conseguia escrever, verborragia.
Se antes não conseguia enxergar, fotofobia.
Se antes não conseguia atentar, minúcia.
Se antes marasmo de um céu insosso, mil raios e trovões.


15 março, 2009

Da arte de envelhecer


Esse meu post vem com barulhos de teclas de computador tanto quanto de ranger os ossos.
Todos passam por esse momento uma vez por ano, aquele fatídico dia, tal qual escolhemos como o melhor dia de todos os tempos: o nosso aniversário.
Digo nosso para existir maior catarse, mas, na verdade, eu falo pelo meu próprio. Ah, que maravilha: ganharei presentes, sairei para comemorar, reunirei família e amigos, todos os que gostam, e até uns que não gostam, de mim. Não é animador?
Estou ficando mais velho. Ganhando mais responsabilidades, conhecendo mais da vida e de mim mesmo, realizando mais coisas, conquistando mais objetivos, aproximando-me mais do que eu penso ser minha realização total. Não é animador?
Nesse ponto já passei por muitas coisas, não sou mais o que podem chamar de jovem sem experiência qualquer, já estou na faculdade, encaminhando meu futuro ou fazendo qualquer outra coisa que tenha a ver com minha realização profissional. Não é animador?
NÃO! NÃO É ANIMADOR.
Eu, novamente pelo meu próprio aniversário e meus próprios 19 anos em breve conquistados, afirmo: ficar velho é um saco. Um ano a mais que vivi e agora penso: por que não aproveitei mais as brincadeiras da infância, aquilo que chamo de brincadeiras da adolescência ou minha insuportável guerra contra o vestibular? Não que eu não tenha aproveitado... Até muito. Mas não há como não pensar que sempre há uma possibilidade de conseguir-se extrair alguma gotinha mais de felicidade de alguma memória minha.
Sou, pois, um recém chegado à velhice da alma. Agora, são presentes, comemorações, reuniões de família e amigos... tudo camuflando as minhas responsabilidades, objetivos, experiências, faculdades, futuro - ah, futuro que virará, daqui a um ano, passado já! - profissionalismo...
Dou-me essa semana, portanto, de férias. Férias da minha idade, dos meus pensamentos.
Durante uma semana inteirinha, não serei Henrique ou terei quase 19 anos. Um dia serei Henrique, outro Senhor Henrique, outro Mib; terei 6, 14, 11, 50, quantos anos eu quiser, nos momentos que quiser. Irei à escola, ao trabalho, à faculdade, fingirei doença para faltar prova, jogarei bola, nadarei, dançarei tango na Espanha, pedirei minha futura esposa em casamento, participarei do parto de meu filho com minha futura ex esposa, divorciarei-me, casarei de novo... ah, vamos viver tudo que há pra viver.
Pronto. Essa semana inteirinha inteirinha, eu vou ser qualquer um quando eu quiser.
E felizes aniversários para mim.


"Hoje, o tempo voa, amor... escorre pelas mãos mesmo sem se sentir! E não há tempo que volte, amor: vamos viver tudo o que há prá viver, vamos nos permitir!" (Tempos Modernos - Lulu Santos)

06 fevereiro, 2009

Dos tantos rostos, qual deles?

Eu sei que você tá aí, à espera, à espreita.
Um dia frio e uma brisa enregelante que corre minha espinha com as lembranças de um passado, em memória, tão vivo e presente; em tempo, tão morto e longíquo. Ah, essas doces e malditas lembranças que insistem em assombrar-me.
E quanto mais eu sigo em certezas de que é para ser, dois passos retorno em medo, em angústia, na certeza do não. E o não tem sido tão forte.
Por que, simplesmente, então, não largar? Há outros rostos, tantos outros. Aquele sorriso é espelho do meu; aquela boca faz par com a minha; tal alma é amante da minha.
Rastejo, engatinho, ando, acelero, corro. Ganho asas e plano em direção a essas imensidões que são o relacionamento homem-mulher. Tirando o melhor de cada um, percebo, entrentanto, que a aurora seguinte demonstra não ser o ideal.
E aqueles sorrisos, bocas, almas e tudo mais que são meus, e mais, me dizem que há! Há, sim, o semblante ideal que venho insistentemente procurando.
É, inconsciente, porém, o fato de eu saber a quem pertence?
Se sei, se não sei, essa noite mais um rosto vai ao meu lado se postar. E durante todos os momentos, como a única, como a certa, ela será.

"Até amanhã eu vou ficar /e fazer do teu sorriso um abrigo. (...)/Canta para mim, /qualquer coisa assim /sobre você /que explique a minha paz: /tristeza nunca mais." (Casa Pré-Fabricada - Los Hermanos)

02 fevereiro, 2009

Poema da composição menor

Eu queria fazer um poema....
Explicar pra todo mundo o que eu quero,
me livrar de vez desse problema,
encontrar aquilo que há tanto tempo espero.

Eu queria escrever um livro...
Além de plantar uma árvore, ter um filho e outros tantos planos.
De vez em quando, esquecer todos esses meus desenganos,
e que me fossem perdoados os danos.

Queria contar uma história...
Uma daquelas lindas, cheias de aventuras e emoções
que enchessem minha vida da mais pura glória
e que, finalmente, tocassem os corações.

Ah, como eu queria tantas coisas...
Escrever livros, poemas, contar histórias.
Mas, depois de todo esse tempo, eu só queria uma coisa de verdade...
que se espalhasse pelo vento
e contasse a todos ao relento
da minha felicidade!



"A lua que brilha no céu /reflete, no meu caminhar, /a luz da inspiração /motivo pra gente compor /não falta e não há de faltar (...) /Pra expressar alegria ou dor /tudo é enredo na mente de um compositor." (A Lua de um Poeta - Diogo Nogueira)

15 janeiro, 2009

Qualquer Adeus

"Qualquer adeus tem um preço pra quem se despede e pra quem vai ficar. Se for banal, não custa mais do que um aceno. Qualquer adeus, quando não é qualquer, desarruma as gavetas de alguém. E nesses dois, como um sinal, fica a saudade." (Qualquer Adeus - OBARRA)

O Adeus de quem fica

Eram tão seus os braços de meus abraços, que mais pareciam laços que nos prendiam e faziam-me pender para seu lado. Eram tão seus os risos dentro dos meus sorrisos, as imagens e confusões de toda a minha ilusão.

E de tudo que eu podia ter certeza, das palavras que me proferiu quando suas costas foram as últimas imagens guardadas em minha memória, de tudo que a mim pediu, nada cumpri.

Naquela manhã de sol em que o vento levemente batia em meu rosto, percebi que mudado tinha tudo. Sentou-me no sofá e afagou meus cabelos com suas mãos, como sempre suando. Li o desconforto em seu rosto e em cada gesto lançado bruscamente, era impossível eu não analisar o feito por você. Ah, esses gestos que já passaram tanto de bruscos para suaves e bruscos de novo em nossa história, por meu corpo, por minha alma, agora vinham-se virar contra mim.

Eu te amo. Era o que pensava, mas você não sabia, quando fui pega de surpresa por suas palavras. Achei que era mais uma daquelas vezes que você lia meus pensamentos perfeitamente.

Eu te amo, repetiu. Apertou suas mãos nos meus braços e foi descendo, percorrendo cada centímetro do seu objeto conhecido ali em sua frente. Abraçou-me e sussurou no meu ouvido para eu guardar as melhores lembranças do passado. Um último beijo, o último abraço, derreti-me em seus braços, o último amor, o último afago, o último riso, a primeira lágrima.

Fiquei deitada enquanto levantava-se, vestia-se, apanhava as malas prontas a um canto do corredor e saía porta afora, sabia eu, para nunca mais voltar.

As marcas de minha alma escorriam pelo meu rosto a cada passo que distanciava-se de mim. Fiquei deitada por não sei mais quanto tempo, não sei mais quantos dias. Mas, a minha impressão é de que nunca mais havia me levantado.



"Pois vá embora, por favor/Que não demora pra essa dor... sangrar" (A Outra - Los Hermanos)

O Adeus de quem parte

Eram tão seus os braços de meus abraços, que mais pareciam laços que nos prendiam e faziam-me pender para seu lado. Eram tão seus os risos dentro dos meus sorrisos, as imagens e confusões de toda a minha ilusão.
Era eu tão seu. Éramos nós felizes, não éramos?
Mas à mesma velocidade em que eu pensava isso e convencia-me do afirmativo, nós éramos felizes, minhas mãos arrumavam a mala aberta aos meus joelhos. O convencimento da felicidade veio junto ao pensamento de que não se precisa convencer-se dela; sente-se. Ao contrário, a plenitude não é verdadeira.
Esperei você chegar. Uma brisa quente de uma manhã de sol pegou seus cabelos. Linda, era tudo que eu conseguia pensar. Exatamente linda como naquele dia em que nos conhecemos, uma brisa, dessa vez fria, em você, uma brasa em mim.
Olhei o fundo de seus olhos e me vi no fundo de sua alma. Ah, tão fácil conversar com você que já sabe tudo que quero antes mesmo de pronunciado; tão difícil conversar com você que já sabe tudo que quero antes mesmo de pronunciado.
Ao nos sentarmos naquele sofá já tantas vezes testemunha de nosso amor, tive vontade de voltar atrás em minha decisão pela primeira vez. Seus olhos, doces e tempestuosos, entretanto, pareciam me insuflar: você já havia percebido o que ia acontecer. E ao invés de me segurar, aconselhava-me a ir, como se a coragem que tanto admirou em mim durante anos fosse evaporar caso desistisse.
Como tremia quando pus a mão sobre seu corpo e senti de novo a mesma vontade. Ali, onde nos amamos tantas vezes, mais uma vez me encontrei em você.
Na verdade, eu não compreendia o motivo de estar partindo e você sabia disso. Falei apenas para recordar do passado, trocamos um último beijo, o último abraço, derreteu-se em meus braços, o último amor, o último afago, o último riso. E ao levantar, vestir-me, pegar as malas e sair porta afora, uma lágrima molhou meu semblante.
Ali tive certeza: a vontade de voltar atrás jamais sumiria de mim; sempre, sempre eu pensaria o que teria sido se nada tivesse mudado, ou o futuro caso eu voltasse.
Mas eu nunca voltei. E apesar de cada lágrima, as quais apanharam-me nos dias de brisa quente que o cheiro de seu cabelo envolvia meu ar, eu segui.



"Vê se te alimenta/E não pensa que eu fui por não te amar" (Adeus Você - Los Hermanos)

06 janeiro, 2009

Tudo aquilo que ela une

Ela, de fato, une isso, isto, esse e aquele. Tudo, todas as coisas. Como eu poderia explicar?
Ah, tem um ar misterioso, como se as águas doces de um rio estivessem turvas à minha visão... ah, em contrapartida, parece tão fácil solucionar suas dúvidas, decifrar seus sentimentos como a mais límpida água transparente de um mar.
Tudo, todas as coisas: terra, fogo, sentimento fundo de água e leveza do ar.
Em tudo, em todas as coisas ela está. Mas, principalmente, tá no vazio que me dá quando eu vejo a tarde cair e ela não está. Vazio que enche com o cair da tarde e esvazia com o nascer do outro dia.
De certo, ela sabe, ou melhor, ela lembra, de tudo que eu preciso sentir. Ah, mudei, aliás, mudamos. E se os sentimentos também mudaram, ela só precisa existir pra me completar... e basta.
E quando eu olho pro horizonte, já tem a união entre o mar e meu olhar comprovando que sim, basta.
As quatros estações, o fim das bifurcações, o fim das minhas dúvidas, dos meus desencontros...
Tudo, todas as coisas. Porque isso, certamente, basta.

05 janeiro, 2009

But I still haven't found what I'm looking for


Ele girou a maçaneta, entrou no quarto escuro e deitou-se na cama. Eram por demais exagerados os pensamentos em sua cabeça. A verdade é: não conseguia nem se concentrar no que pensava, não lembrava do assunto há poucos instantes refletido, antes de ser mudado em uma pausa dramática na ópera trágica que passava-se em sua mente. Ligou a vitrola dada anos antes pelo avô - ah, seu Antônio havia guardado e conservado tão cuidadosa e carinhosamente; aquele era o presente do qual mais gostava o rapaz.
Tocava um dos discos mais antigos que tinha: nem do nome da cantora ele conseguia lembrar-se, mas a voz ecoou dentro de seus conturbados pensamentos e o acalmou. Tocou-a durante uns instantes, muitos instantes, instantes demais. Adormeceu. Quando acordou, resolveu continuar a escutar música e pôs um disco do U2. Antigo, também com uma música tantas vezes regravada.
Buscou em sua memória as aulas do curso de inglês pago por seu pai. O vocalista cantava algo que dizia: "But I still haven't found what I'm looking for". Conseguiu traduzir a sentença pra uma realidade que, mesmo após o término da música, permaneceu em sua cabeça: "mas eu ainda não encontrei o que estou procurando".
Era isso, devia ser, o que estava causando tanta agitação nos pensamentos do rapaz a ponto de não conseguir organizá-los. Existia uma incompletude, uma sensação de abandono, de solidão, a qual, para uma mente desavisada, podia se camuflar e confundir como carência. Deve-se, neste ponto, atentar, porém, que não era. Era, de fato, um abandono, uma solidão, mas não dessas facilmente imaginadas; não era física, não se resolvia em encontros... era da alma.
Mas, voltando ao questionamento principal, o que ele estava buscando? E como, poderia ele encontrar se nem sabia o que desejava?
Na verdade, ele estava procurando nada. Não era de seu interesse fazer esse jogo de busca através de um tempo não pertencente a ele. O rapaz deveria empreender seus momentos em achados casuais.
Recolocou o antigo disco da cantora desconhecida na vitrola e ligou a televisão para dublar as palavras do jornalista enquanto escutava a música. Decidiu parar de se preocupar com aquilo que havia gasto tanto de seu tempo naquele dia. Pararia de beber, arranjaria um emprego e, às vezes, dançaria um tango argentino. Quem sabe a alma dele não se deparava inusitadamente com o que solucionaria a sensação?